Conheci A Vida com Logan pelo Twitter. Na época em que acessava a ferramenta, segui uma twitada de um colega e fui parar no site. Tenho que contar esta passagem pois, me lembro bem, foi a única coisa de bom que tirei daquela rede social e a qual acompanho ainda hoje. Eu, que não sou muito de ler tiras diárias, me encantei com a sinceridade e alegria que Flavio Soares, o autor, nos passava em seu traço. Na época, seu site já era um misto de quadrinhos, notícias, comentários e crônicas, e já havia alcançado grande notoriedade. Algum tempo depois, algumas entrevistas pelo QaQ e algumas biografias lidas também, voltei a visitar um desejo antigo de entrevistar o Flavio. Gostaria de saber um pouco da sua trajetória e de seus planos futuros, enfim, conhecer um pouco mais desse quadrinista inspirador que além de tudo é gente finíssima! 

A Vida com Logan nasceu junto com o menino que dá nome ao site, uma criança com Síndrome de Down. O início do site, em 2005, trazia relatos e textos informativos. Em 2009, no entanto, Flavio resolveu retratar seu dia a dia em tirinhas, cujos personagens principais atualmente são o próprio Flavio, Camila (sua esposa), Logan, Max (irmão menor do Logan) e seus animais de estimação. 

Vamos para as perguntas:

[QaQ] Diagramação foi um de seus cursos de formação, pois você achava que isto ia te ajudar a trabalhar com histórias em quadrinhos. Inclusive, um de seus primeiros empregos foi como Diagramador de um jornal. Qual era sua idéia inicial? Você pensava  em fazer trabalhos autorais, trabalhar para uma editora como desenhista/roteirista ou pensava em trabalhar em alguma revista sobre quadrinhos?

[Flavio Soares] Esta história é engraçada mesmo. Eu virei diagramador por um erro de julgamento (risos). Antes de começar a fazer o curso (tinha coisa de 14, 15 anos na época), acreditava que ser um diagramador me ajudaria a compor melhor minhas páginas de quadrinhos. Olhando em retrospecto, hoje, de certa forma isso ajudou mesmo. Me deu um senso de "equilíbrio de mancha" que eu tento aplicar, guardadas as devidas proporções, aos quadrinhos que faço. Além disso, eu podia me orgulhar de ser um dos poucos fanzineiros que sabia produzir textos em colunas (risos).

O "ser diagramador" também era uma forma de entrar nas editoras e entender todo o processo. Isso foi bom. Me deu o conhecimento prático e teórico da produção completa de um produto editorial (revista, HQ, livro, etc). Para alguém extremamente "controlador" como eu, isso é uma boa vantagem na hora de discutir com editores.
A ideia inicial sempre foi de eliminar os exercítos vermelhos ou consquistar 18 territórios, além, é claro, de pagar as contas produzindo quadrinhos e ilustrações. Claro que não deu certo e foi por isso que fiquei muitos anos sem desenhar, apenas diagramando. Quando garoto eu tinha aquele sonho de trabalhar pra Marvel, pra DC, desenhar o Batman, ser bem pago pra fazer o que eu gostava. Não rolou. Como diagramador me sinto satisfeito com tudo que fiz até hoje: trabalhei da produção/versão de titulos que gostava muito (nem sempre concordando com algumas decisões, mas satisfeito por estar lá), trabalhei com revistas sobre quadrinhos, tendo como ponto alto minha passagem pela mais longeva encarnação da Wizard Brasil ao lado de Sidney Gusman e Levy Trindade; ao lado de Fernando Lopes e da equipe de arte da Mythos Editora, trabalhei na transição dos quadrinhos Marvel (e depois com os da DC também) da Abril para a Panini e mais um monte de coisas que me deixam satisfeito por ter "estado lá" e participado. Creio que, como diagramador, não há mais nada que me "falte" fazer. Como desenhista/roteirista são outros quinhentos. Tem muita coisa que eu ainda quero fazer (e espero que as contas permitam). (risos)
 
 

[QaQ] O que você acha que mudou na forma com que você encara desenvolver uma história em quadrinhos do começo de sua carreira para cá? Hoje você encara fazer quadrinhos como uma coisa mais séria ou mais divertida do que no começo? O Logan ajudou a mudar este conceito ou foi uma coisa natural?
 
[FS] Eu acho que o que mudou, de verdade, no meu modo de desenvolver quadrinhos foi meu comprometimento. Quando você é fanzineiro, sem grandes responsabilidades sociais e financeiras, o teu compromisso varia conforme teu humor.
Com o A Vida com Logan no momento em que veio a coragem para lançar mesmo as tiras, eu assumi comigo mesmo um comprometimento diferente. Assumi uma produção constante (coisa que nunca havia feito), em um formato que eu nunca havia trabalhado com mais atenção (tiras) e tudo isso após anos sem escrever ou desenhar qualquer coisa relacionada às HQs. Foi um verdadeiro "salto no escuro" que mudou todo meu modo de "pensar" quadrinhos. Hoje a sensação é a de que fiz isso minha vida inteira, mas, no começo, eu fui "aprendendo" (ou "reaprendendo") a trabalhar uma tira de cada vez. Foi um processo natural, sim, mas que exigiu muita disciplina e comprometimento.
 
[QaQ] Seu blog 'A vida com Logan' combina tirinhas com textos e notícias sobre a Síndrome de Down. O que o lado informativo não consegue atingir, é o lado artístico que abrange. Sempre foi sua idéia mesclar as coisas ou foi natural com o decorrer do tempo?
Você pensava apenas em contar o seu dia a dia com sua família ou sempre pensou que seu blog poderia fazer um bem maior para todos?
 
[FS] Sim. Quando o blog mudou de sua encarnação original, apenas com textos, para esta com as tirinhas a ideia era mesclar informação, crônicas e as tiras. Hoje, infelizmente, a parte de informação e crônicas está com poucas atualizações por causa da falta de tempo. Isso me deixa muito frustrado pois, embora as tiras tenham um papel de destaque e sejam um veículo muito eficiente para passar qualquer recado, a parte de informação também é muito importante.
Tudo começou por conta da "falta de informação" que eu vi quando Logan nasceu. O blog, ainda na época do UOL, nasceu porque, de alguma forma – e dentro de minhas limitações, claro – os textos que estavam lá, mostrando minha rotina com Logan (e, depois, minha rotina de pai separado), poderiam ajudar outra pessoa; poderia responder alguma pergunta ou poderiam, simplesmente, mostrar que no final tudo se encaixa e tudo dá certo.
Deixar o blog tanto tempo sem atualizações de informações pertinentes me deixa muito insatisfeito.
Agora, verdade seja dita, eu sempre imaginei que o blog seria uma coisa pequenininha, vista por meia dúzia de gatos pingados da família e mais alguma audiência rotativa que chegaria até lá por alguma ferramenta de busca. Nunca imaginei que tomaria a dimensão que tomou.
 

[QaQ] Hoje em dia tem surgido cada vez mais trabalhos autobiográficos em forma de HQ`s. A grande maioria é um trabalho de revisão ao passado para desabafar, dividir dores e expurgar fantasmas. O seu, ao contrário, é uma dose semanal de alegria sobre sua vida atual. De onde veio tanta inspiração, vem de outros autores, de sua experiência profissional ou é da alegria de ser pai e de ter uma família feliz?
 
[FS] Eu poderia, de verdade, ter escrito um drama com cores fortes, lágrimas, dor, fúria e algum supervilão megalomaníaco. Poderia mesmo. Só que nada disso seria justo com Logan. Tudo de bom que aconteceu na minha vida foi em função dele. Eu mudei como pessoa, indo de alguém desprezível para alguém melhor, retomei uma carreira de desenhista da qual havia desistido anos antes e tudo por causa do sorriso sincero dele.
Nada, nenhuma dificuldade, nenhuma lágrima tem relação com Logan. Nossa vida com ele é alegre, é divertida, é bagunçada e é feliz. O que a tira mostra é um reflexo disso, desse dia a dia. "Pesar a mão" no drama seria uma saída fácil e, além de falsa, absurdamente injusta com Logan e com tudo que ele representa na minha vida e na vida da minha família.
Ifluências tenho muitas, mas acho que a mais marcante em A Vida com Logan seja a de Bill Watterson e seu Calvin. Adoro o trabalho dele. Não acredito que exista alguém que tenha um domínio tão grande da "arte de fazer tiras" quanto ele.
 
[QaQ] Como desenvolveu seu traço, teve alguma inspiração? Para 'A vida com Logan', sua arte parece a mais real e sensível possível, meio que um estilo único. Tem algumas dicas para ajudar novos desenhistas ou pra você foi um processo totalmente natural?
 
[FS] Falar sobre o meu desenho é uma coisa engraçada. Se você me mostrar uma arte feita por mim, muito provavelmente direi algo como "tá uma m*rda!". Sério. Pode perguntar para quem me conhece. Nunca gosto do meu desenho. Tem um amigo roteirista e desenhista que publicou alguns trabalhos maravilhosos e que sempre me responde: "a tua opinião não conta, tá legal e pronto." (risos)
Embora eu não seja meu maior fã, nesse período de trabalho constante, a arte evoluiu, claro. No começo, nas primeiras tiras, dá pra ver uma influência muito forte de Bill Watterson. Aos poucos fui "assimilando" partes do trabalho dele e fui buscando coisas novas, como o jeito dos italianos de desenhar as mãos dos personagens da Disney, e esse conjunto foi amadurecendo e virando um estilo.
Passar para o processo digital também mudou algumas coisas no meu jeito de desenhar e isso foi incorporado ao estilo.
Acredito que procurar novos limites, sempre, é a melhor escola. Espelhar-se em alguém, "imitar" seu estilo na busca de um trabalho próprio, de sua personalidade, é um processo válido que todo desenhista deve usar. Mas não se deve ficar limitado ao campo dos quadrinhos. Amplie isso. Busque inspiração nos grandes mestres e quando assimilar o que buscou neles, você tem que partir pro passo seguinte, tentar algo novo, ficar sempre fora da sua zona de conforto.
Um erro é sempre um erro. Um conjunto de erros é um estilo. Ache seu "conjunto" de erros, trabalhe neles e depois leve-os ao limite, encontrando novos erros e tornando-os um novo conjunto. É assim que um desenhista cresce.
E estudo. Não é porque você estudou tudo que precisava sobre anatomia que você nunca mais vai sentar em uma sala de aula para estudar mais um pouco. Participe de cursos rápidos, vá a workshops, procure aulas com modelos vivos, treine sempre, estude sempre e o teu trabalho vai evoluir sempre.
[QaQ] Você pretende publicar 'A Vida com Logan' por alguma editora ou de forma independente? Já recebeu alguma proposta do tipo?
 
[FS] Eu sempre quis publicar o A Vida com Logan em jornais, mas acabou não acontecendo até hoje. Vejo potencial até mesmo para trabalhar uma página em formato tablóide com HQs e atividades, mas não foram coisas que atrairam a atenção dos editores de jornais.
Quanto a livros, temos algumas coisas andando neste sentido, mas é tudo muito inicial e pode ser que aconteça como também poder ser que não. Em 2013 saberemos com certeza.
 
[QaQ] Atualmente, você anda se dedicando a mais HQ`s além de 'A Vida com Logan'? Pretende lançar trabalhos diferentes?
 
[FS] Sim. Estou trabalhando em um roteiro longo desde o começo do ano que será desenhado por um grande amigo. É uma HQ bem diferente de A Vida com Logan. Depois que terminar este roteiro, tem mais duas HQs longas que quero escrever e ainda não defini se vou desenhá-las ou não. Uma com certeza eu desenharei.
Além disso tem o projeto Meninos & Dragões que fiz em parceria com Lucio Luiz e que pode vir a ser uma revista de linha da Editora Abril.
 
[QaQ] Como sua família reage ao blog? Todos gostam de participar e te dar idéias, ou é mais como um trabalho normal mesmo? Sempre surge a curiosidade quando o assunto é trabalhar em casa fazendo o que gosta, e ainda mais junto com a família!
 
[FS] A família reage de modo natural. Logan já reconhece todo mundo nas tiras e sempre que vê alguma identifica quem é quem (risos). Quando ele estiver lendo será divertido ver a reação dele lendo as piadas.
Camila é quem mais participa com ideias. Normalmente eu faço todo o trabalho de criação da tira, mas, em mais de uma ocasião, Camila (minha esposa, madrasta de Logan) veio até mim com alguma boa sacada que dou uma mexida pra "encaixar" como tira e ponho no ar.
Trabalhar em casa é uma coisa complicada. Embora te dê uma grande liberdade, exige diciplina. Você precisa manter um ritmo, uma produção diária para não se complicar. Às vezes dizer "não" é a parte mais complicada nesse negócio ("não, não posso jogar video-game agora com vocês… preciso trabalhar…"). Mas é inegável que a alimentação tem mais qualidade e a flexibilidade no horário te permite dar uma descansada depois do almoço (risos).
 
[QaQ] Existe algum plano futuro para o blog? Você pensa em parar de desenhar as tirinhas quando algum de vocês atingir alguma idade, ou só vai parar mesmo quando algo mudar no seu planejamento?
 
[FS] No momento, o único plano futuro é continuar com o blog e com a periodicidade.
Não tenho planos para acabar com as tirinhas. Sempre digo que A Vida com Logan é o trabalho que gostaria de fazer até meu último dia de vida e continuo com este propósito em mente. Como não tenho planos de morrer num futuro próximo acho que podemos dizer que as tirinhas vão continuar por mais alguns anos (risos).
 
* Todas as imagens deste post foram retiradas do site do entrevistado, http://www.avidacomlogan.com.br/
 
— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.