Vivi as últimas 48 horas em 2014 e neste tempo celebrei, vi o raiar do primeiro sol do novo ano, dormi, aproveitei o feriado e no primeiro dia útil do ano trabalhei. Também vi muitas mensagens de felicitação se referindo a 2014 como um caderno com folhas em branco onde teremos a oportunidade de escrever nosso futuro.

É verdade, estamos recebendo um caderno com folhas em branco, mas a tinta que vai preenchê-lo vem misturada com as recordações e experiências dos anos idos. No meu caso a tinta vai ter muitas recordações do FIQuadrados e amigos no FIQ 2013Q 2013.

Mais uma vez o Quadro-a-Quadro esteve presente no FIQ com um stand, desta vez estreando nosso selo editorial com Tiki – O Menino Guerreiro, Máquina Zero e Ozadia. Foram cinco dias trabalho e lições aprendidas, mas também de muita emoção, a começar pela minha chegada ao evento (parar na porta da Serraria e olhar longamente para o local está virando um ritual) e pelo encontro com quadrados que residem fora de Salvador.

Uma HQ produzida pelas criançasDesde a primeira edição do FIQ da qual participei me encanto com o trabalho desenvolvido junto às escolas locais. São centenas de crianças que diariamente comparecem ao evento, algumas aprendendo a ler em meio a HQs, estátuas de personagens e todo aquele clima que o FIQ proporciona. Este ano as escolas levaram o contato com quadrinhos a outro nível e diversos dos alunos nos presentearam com seus portfólios, pequenas HQs feitas em uma folha de papel A4 devidamente dobrada e com as páginas numeradas. O resultado ficou muito bom, em alguns casos surpreendente.

Participei da excelente Oficina de Roteiro com Vitor Cafaggi, pude rever velhos amigos, conhecer novos artistas, trocar muita informação, encontrar gente que eu só conhecia virtualmente (como os talentosíssimos Jefferson Costa, parceiro em Guerras do Sono, e Tony Silas, capista do Máquina Zero) e bater papo com caras cujo trabalho influenciou minha formação, como o Marcatti.

Além da imeLucas Pimenta & Ivo Milazzonsa alegria de estar em mais um FIQ tive dois momentos de inesperada emoção, um deles foi o encontro entre Ivo Milazzo (desenhista de Tiki – O Menino Guerreiro) com o Editor Lucas Pimenta (fã de Milazzo desde os nove anos de idade). Quando Milazzo apareceu no  stand do Quadro-a-Quadro Lucas não estava e o artista italiano declarou que gostaria muito de conhecer o editor que publicou Tiki no Brasil. Informamos que ele estaria de volta em uma hora e Milazzo ficou de retornar. Depois de uma série de situações que tranquilamente renderiam um HQ os dois se encontraram e dá pra imaginar como foi. Se eu, que nem sou tão emotivo, me emocionei, pense no Lucas e no próprio Milazzo, que esperava um editor bem mais velho.

O segundo momento foi uma imensa surpresa até para mim: foi quando encontrei o George PerezGeroge Perez & Sergio Barretto. Avistei-o olhando um dos painéis da exposição e à medida que me aproximava dele para tirar uma foto imagens de seus trabalhos em Novos Titãs, Crise e tantos outros tomaram de assalto minha mente. Quando finalmente cheguei perto dele me sentia um guri de 12 anos diante daquele tio bacana que sempre te traz um gibi novo quando vem visitar o seu pai. As lágrimas me vieram aos olhos, abracei-o e agradeci (em inglês macarrônico) por todos aqueles gibis.

Nos cinco dias em que respiramos nona arte muitas coisas dignas de nota aconteceram, como a reunião da Tropa dos Lanternas Verdes ou ter Boulet, Salvador Sanz, Ivo Milazzo e Shiko autografando no nosso stand. Mas uma coisa em especial me chamou a atenção: a quantidade e variedade de títulos a disposição dos amantes da nona arte.

Infelizmente não adquiri tudo que gostaria, pois seria financeiramente inviável, mas trouxe comigo material de altíssima qualidade. Entre compromissos e obrigações já consegui ler alguns dos títulos que adquiri, e é sobre eles que vou falar.

Seguem minhas impressões sobre o que já li e, pelo andar da carruagem, acredito que boas histórias me aguardam entre o que ainda falta ler.

As Aventuras do Capitao NemoAs Aventuras do Capitão Nemo – O Navio Fantasma
Lillo Parra & Will
A editora Nemo acertou imensamente na escolha do Will para ilustrar os álbuns do Capitão (acho o Nautilus do Will simplesmente fantástico) e tem acertado mais ainda na escolha dos roteiristas. Neste volume temos uma história bacana, despretensiosa e gostosa de ler, onde o capitão Nemo precisa salvar seu submarino da maldição do Holandês Voador. Maldição? Leia e decida por você mesmo.

Ascensão e Queda de Big MiniAscenção e Queda de Big Mini
Artur Fujita
A história de um anão que tenta atuar no teatro, mas vai acabar no cinema pornô em função dos seus “dotes”, já tem uma dose razoável de nonsense. Mas recordatórios brilhantemente construídos em verso e um final emocionante são coisas que não se encontra em qualquer lugar.

BROBRO
Marcelo Costa e Magno Costa
Compilação de pequenas histórias desenhas pelos irmãos Costa entre 2006 e 2010. Rápida, rasteira, com projeto gráfico bacaninha e boa de ler.

Ciranda da SolidãoCiranda da Solidão
Mário César
As alegrias (e angústias) de descobrir-se, de encontrar/desencontrar a cara metade e de amar  são comuns a todos, independentemente de orientação sexual. Ciranda da Solidão é exatamente sobre isso.

Ditadura no ArDitadura no Ar nº 3
Raphael Fernandes & Abel
A saga do repórter Félix em busca de sua namorada Nina, em plena época de regime militar no Brasil, chega a seu penúltimo episódio e a gente fica angustiado até a última parte sair. Tomara que saia logo…

Lost Kids – Buscando SamarkandLost Kids
Felipe Cagno & diversos artistas
Toda vez que precisava passar em frente a mesa onde o Felipe estava com Lost Kids eu parava e admirava – a edição ficou simplesmente linda. A história é simples, mas bem desenvolvida, e apesar da grande quantidade de artistas responsáveis pelas artes de cada capítulo diminuir um pouco a fluidez da leitura algumas artes são simplesmente excelentes.

O Azul Indiferente do CéuO Azul Indiferente do Céu
Shiko
Obra autoral do mesmo responsável por Piteco – Ingá (da linha Graphic MSP). Aqui Shiko desenvolve uma história genial, um soco no estômago, a partir de uma notícia de morte e um poema. Simplesmente fantástico.

Quatro EstaçõesQuatro Estações
Alex Mir & Décio Ramirex, Daniel Esteves & Priscila Gurski, Lillo Parra & Jackson Oliveira, Raphael Fernandes & Luciano Salles
O que estes 8 autores poderiam fazer utilizando as quatro estações do ano como inspiração? Histórias bacanas que vão te fazer querer que o ano tivesse algumas estações a mais.

Quer Dançar?Quer Dançar?
Guilherme de Souza
Você olha a capa, vê o título e pensa “mais um gibi romântico”. Ledo engano! Esse gibi é a coisa mais exótica e cheia de nonsense que eu trouxe do FIQ. Falar qualquer coisa a mais estragaria as surpresas que te aguardam.

Sequence ShotSequence Shot
Greg Tocchini
História curta, sem falas, onde o Greg Tocchini mostra uma força narrativa impressionante. Na sequência da batida de carros dá pra ouvir o som do metal se retorcendo.

Surfista CalhordaSurfista Calhorda
Diversos autores
O que você faz quando um bando de irresponsáveis pega um dos seus personagens mais queridos e escreve histórias ridicularizando tudo que você mais gostava nele? Você ri, e ri muito, por que é muito bem feito pra ele deixar de ser otário.

TirânicaTirânica
Matheus Sant´anna, André Alonso, Silvio dB, Anderson Cabral, Giovana Leandro
Revolta popular, mudança de poder, traições… Quanto mais as coisas mudam mais permanecem as mesmas, certo? Isso você vai ter que conferir nas excelentes histórias de Tirânica.

Ainda faltam 8.712 horas até que eu receba mais um caderno novo, cheio de folhas em branco, mas espero que até lá consiga utilizar a tinta dos tempos idos para encher de bons textos o caderno que está comigo. Espero que você faça o mesmo com o seu. Boa escrita!

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.