Foto_BernardoPor Bernardo Machado*

* Bernardo Machado é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Certa vez perguntaram a Patrick Rothfuss o que ele tanto via em Firefly, série de TV idealizada por Joss Whedon. O indagador ao ver a série e não achar nada demais, não conseguiu entender o motivo de tanta devoção do escritor. "É porque você não tem coração", respondeu Rothfuss.

Tenho esse mesmo sentimento com A Softer World.Série de tiras dos canadenses Emily Horne e Joey Comeau, ASW foi lançada online em fevereiro de 2003 e encerrada agora, maio de 2015. Foram mais de 1.200 tiras, publicadas durante a semana – exceto às sextas, como já dizia seu slogan.

São tiras de três quadros (muito raramente seis), compostas por uma fotografia – espalhada, repetida ou com o zoom adulterado – ou uma série de fotos, mais texto. É no texto que reside o verdadeiro charme de ASW, de tom mórbido, absurdo, quase nonsense, com temas como desastres, acidentes, misticismo, sexualidade e mentes assassinas. O timing da piada vem justamente dessa combinação em que no último quadro o leitor ri, mas ri meio sem graça, cúmplice e culpado.

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E é aí que entra o coração. Se você não consegue se identificar com o lado triste, melancólico, de quem entende, sofre, nem se identificar com o lado rancoroso, mórbido, de quem também entende, mas sofre por ser o perpetrador, bom, o problema está em você – ou seja, você não tem coração. Emily e Joey conseguem, por mais absurdo que seja a situação trazida, fazer o leitor entender e se relacionar, como quem sabe que, mesmo não tendo vivenciado (ainda?) aquilo, o pensamento, a reação seriam exatamente aqueles.

Vale aqui um adendo sobre estrutura e publicações. Além da combinação fotografia + texto, ao clicar sobre a tira, um pequeno balão de texto aparece, contendo o título ou algo que funcione como um comentário – bem no estilo xkcd; há duas compilações de melhores tiras – escolhidas por Emily e Joey – lançadas, mas para o gran finale, acompanhando o encerramento das atividades, a dupla lançou um projeto de financiamento coletivo que pedia US$ 25.000. Intitulada Anatomy of Melancholy: The Best of A Softer World, foi financiada com sucesso, obtendo mais de US$250.000, sempre adicionando novos prêmios a cada meta batida. Dentre esses prêmios, o melhor: cinco tiras lançadas aleatoriamente durante o próximo ano.

A Softer World é uma boa leitura para quando se está triste, e ver uma situação pior que a sua vai te deixar melhor. Inclusive, vale se sentir culpado; o que não faltam são tiras sobre isso.

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Bernardo Machado faz Letras e diz que faz quadrinhos, mas costuma guardar na gaveta ou raramente postar no http://www.pizzacomics.net/. Pesquisa quadrinhos, no NEG(A), o Núcleo de Estudos do Gênero (Auto)biográfico – https://negaufba.wordpress.com/ – e tem uma tatuagem de balão de fala; é constantemente perguntado se nunca vai escrever nada dentro.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.