► Por Guido Moraes*

 

 

Geoff Johns construiu mais uma Mega-Saga de super heróis, daquelas que interferem em todas as revistas da editora, nas histórias dos personagens e nas cabeças dos leitores. Que Johns é o cara nos roteiros da DC Comics de hoje, todo mundo sabe, visto que ele escreve vários títulos ao mesmo tempo, e tem suas histórias repercutindo na de outros roteiristas.

Mas o que é interessante é que o cara aparenta ser um dos mais viciados no universo DC entre todos os escritores. Parece que começou a construir “A noite mais densa” desde o primeiro número que entrou, e sempre resgata acontecimentos de histórias passadas dos personagens, além de ressuscitar idéias interessantes, trazendo-nos a desconfiança de que o cara decorou a cronologia do Universo DC inteiro.

Seu primeiro trabalho na DC foi Stars and S.T.R.I.P, uma HQ sobre a segunda Sideral e seu padrasto F.A.I.X.A. Sua irmã Courtney, falecida na explosão do vôo da TWA em 1996, foi a inspiração para a personagem Courtney Whitmore, a segunda Sideral. Mas é em 2000 que ele emplaca seu primeiro mega-sucesso, substituindo James Robinson (Starman) como co-escritor de Sociedade da Justiça, junto com David S. Goyer. Começava a levar a DC ao emaranhado das histórias de hoje.

Johns começou no título do Lanterna Verde em 2004, em “Green Lantern-Rebirth”, onde trouxe Hal Jordan de volta à vida. O ex-piloto de aviões é o lanterna mais famoso, e o mais querido por muitos. Mas, para quem gosta dos outros lanternas terráqueos, o roteirista trouxe de volta a Tropa dos Lanternas Verdes. Montava a base para suas histórias.

Baseando-se em histórias de outros roteiristas no título, como as de Alan Moore, Geoff Johns resgatou a premonição de que outras tropas de lanternas iriam ser criadas. Preparava o leitor para a “A guerra dos anéis” e  “A noite mais densa”. Para justificar seus acontecimentos, criou arcos de histórias como a “Origem Secreta de Hal Jordan”, onde inseria e revia fatos na criação do personagem.

Perceba que ainda não pude começar a falar de “A noite mais densa” em si, pois assim como o autor, tive que preparar todo o cenário que culmina na saga. Acontece que após a base pronta, Johns escreveu a história “A guerra dos anéis”.  Nela, os Lanternas Verdes lutavam contra uma nova tropa, os Lanternas Amarelos, que tiravam sua força do medo. Para líder da tropa, Johns escolheu Sinestro. Famoso por ser o lanterna verde mais poderoso antes de Hal Jordan, foi expulso de sua antiga tropa por controlar seu mundo como um ditador.

Neste momento da história, o maior acerto de Johns foi resgatar os personagens mais conhecidos dos leitores e dar um novo gás a eles. Sinestro é o antagonista perfeito para Hal, e contando ainda com os desenhos do brasileiro Ivan Reis, o roteiro flui muito bem, e a história se torna muito empolgante.  A luta entre cores (verde x amarelo) e emoções (força de vontade x medo) é genial.

Quando a saga acaba, conflitos menores se sucedem para culminar na “A noite mais densa”.  A história começa muito bem, baseada na idéia de que cada cor do espectro de luz equivale a uma emoção, e que isso gera a força de uma nova tropa, totalizando sete.  Johns usa a mesma fórmula de rever personagens do Universo DC para que o leitor se identifique. O problema é que os vilões Antimonitor, Mão Negra e Nekron, não são tão marcantes e interessantes como Sinestro.

Como toda mega saga da DC tem que envolver as outras revistas, Johns convoca para cada tropa um personagem do universo da editora. Lex Luthor e seu sentimento de cobiça defende a tropa dos lanternas laranjas, o Espantalho a tropa amarela, o Flash e sua esperança iluminados por sua cor azul, etc. Finalmente, surge a tropa dos Lanternas Negros, que recruta todos os mortos do universo DC.

Parece um samba do criolo doido, já que a história repercute nas revistas “Dimensão DC: Lanterna Verde”, “A noite mais densa”, “A noite mais densa especial”, “Liga da Justiça” e “Universo DC”. Nas duas primeiras, a história flui muito bem, escrita por Johns e desenhada por Ivan Reis entre outros bons artistas. O problema é que para ler as outras, é necessária muita paciência, já que a temática se torna repetitiva, os roteiristas e artistas não são os mesmos, e os personagens, além de alguns não terem nada a ver com a história não são tão interessantes. Além do que, não interfere em nada na história principal, e as histórias normais destes personagens “incomodados” pela “A noite mais densa” seguem normalmente depois dela.

A idéia dos espectros de luz e de suas emoções já não funciona mais tão bem, pois como todos as tropas tem que se unir para enfrentar a tropa dos lanternas negros, poucos personagens tem espaço para se destacar, e muitos trocam constantemente de tropa. O lanterna verde terráqueo John Stewart, querido pelos leitores por sua participação nos desenhos da Liga da Justiça, quase não aparece. Não houve como trabalhar tão bem o antagonismo entre personagens e sentimentos. Os combates entre cada personagem e seu afeto morto acabavam sempre da mesma forma.

Tirando todo o estardalhaço feito em cima da história, e todas as dezenas de publicações, fica a impressão que “A guerra dos anéis” era mais divertida do que “A noite mais densa”. Mais sucinta, bem construída e menos cansativa. Desde que começou a escrever no título, Johns trouxe de volta os melhores elementos e criou histórias muito boas, mas sua técnica tornou-se megalomaníaca demais. Espero que a calmaria volte em “O dia mais claro”, saga que sucederá a atual.

*O conteúdo deste post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...