Você provavelmente nunca ouviu falar de Tim Harrison.

Ele não tem nenhum superpoder, não voa e não virou o inimigo mortal de ninguém. Mas ele é o responsável por uma das melhores histórias do Homem Aranha em todos os tempos.

Buscando na memória? Vou ajudar: Roger Stern foi o roteirista e Ron Frenz desenhou.

Não lembra? Não faz mal, você precisaria ter mais de 35 anos para lembrar.

Mas talvez você já tenha trombado com algum scan na internet ou com a republicação da Panini de alguns anos atrás. Ou talvez o nome da história ajude: “O Menino que coleciona Homem Aranha”.

Se você tem a minha idade e gostava do Cabeça de Teia na adolescência eu tenho certeza de que está sorrindo agora, com saudades de um tempo em que os quadrinhos norte-americanos começavam a amadurecer mas ainda não tinham se tornado essa confusão de mundos paralelos e sagas sem fim, que se emendam umas nas outras e duram anos.

Já se você tem metade da minha idade, deixa eu te contar uma história…

Eu tinha uns 12 anos naquela época. Eu ainda não sabia, mas aquele era o último ano da minha infância tal qual eu conhecia.  Logo depois estaria empregado, estudando a noite, namorando e todas essas coisas chatas que levam nossa vida pra um caminho sem volta. O estranho que quanto mais trilhamos esse caminho menos gibis encontramos espalhados pelo chão.

Mas naquele tempo eu ainda não pensava nisso.  Ficava contando os dias para que os gibis que eu colecionava chegassem  às bancas. Os tempos eram difíceis, meu pai estava desempregado e minha mãe trabalhava como ajudante no boteco do meu tio, já eu puxava lata de concreto nos finais de semana como auxiliar de pedreiro com um outro tio meu.

Puxava lata era modo de dizer, eu não tinha forças para tanto. Mas o pouco que fazia me rendia uns cruzados por mês. Não devia ser muito, no máximo uns cem reais em valores de hoje, mas servia pra ajudar a botar comida na mesa. Daquele dinheiro eu tinha autorização pra comprar 02 gibis: o Homem Aranha e o Incrível Hulk, os antigos formatinhos da Abril.

Então imaginem minha ansiedade.

A banca de jornal ficava a umas cinco quadras de casa. O chato é que eu praticamente lia o gibi todo no caminho de volta e tinha que ficar esperando um mês inteiro até o próximo.

Mas naquela tarde eu cheguei em casa chorando. Minha mãe, preocupada, perguntava o que tinha acontecido.

– Nada mãe.

Essa foi a minha resposta e acho que ela nunca soube o motivo do meu choro. Talvez descubra agora, se ler o Quadro a Quadro: naquela tarde eu chorava pelo Tim.

Tudo bem. Eu sou capaz até de chorar com uma receita de bolo, se ela estiver bem escrita. Mas “O Menino que coleciona Homem Aranha” foi a primeira história que me levou às lágrimas.

Exagero? Definitivamente não.

Após uma matéria do Clarim Diário, o amigão da vizinhança fica sabendo de um moleque chamado Timothy Harrison, um fã incontestável do Cabeça de Teia, que coleciona tudo o que diz respeito ao herói, desde os tempos de luta livre na TV.

O nosso herói resolve então visitá-lo.

Simples não é? Então por que tanta choradeira?

Porque essa é uma das histórias mais sensíveis que já li. Nós, fãs de quadrinhos, sempre tivemos dificuldades em aceitar a realidade. Quando crianças, não raro somos surpreendidos com pensamentos como: e se ele existisse de verdade?  E se eu fosse o Capitão América? E se a Mulher Maravilha fosse minha namorada? E se eu pudesse voar?

Exatamente por isso, um garoto que colecionava tudo do Homem Aranha era praticamente nosso irmão.

Poderia estudar na nossa escola e juntos discutiríamos as melhores histórias do Aranha, ou então brincaríamos com as clássicas (sem) action figures da Gulliver.

Mas calhou de Tim ser um personagem de história em quadrinhos e calhou de sair naquele HA19, no já distante ano de 1985.

Tim inevitavelmente cairia nas graças daqueles moleques que liam o gibi do Homem Aranha. Ele era praticamente a encarnação do que gostaríamos de ser.

Hoje, quase 40 anos depois, ainda lembro nitidamente da história, suas falas, os suvenires de Tim, a emoção legítima e o fim impiedoso (como impiedosa muitas vezes é a vida).

E é por isso que a história se tornou clássica. Apresentou-nos à realidade. Um choque para aqueles moleques acostumados a ver o Aracnídeo escapando das mais aterrorizantes situações. Naquela história, o Homem Aranha não venceu.

A quem não leu a história, Tim jamais chegou à idade adulta, ficou imortalizado naquele corpo de guri no início da década de 80.

E a quem leu, bem…

Quem leu jamais se esqueceu de Timothy Harrison.

 

► “O menino que coleciona Homem Aranha” foi publicada originalmente no Brasil em janeiro de 1985, na revista Homem Aranha nº 19, pela Editora Abril, e republicada pela Panini em 2007, no especial Marvel -40 Anos no Brasil.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.