pr0Por Beto Magnun*

* Beto Magnun é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pela mesma.

 

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Hugo Pratt nasceu no dia 15 de junho de 1927, em Rimini, na Itália. Considerado um dos maiores romancistas gráficos do mundo, suas tiras, obras gráficas e aquarelas foram expostas em grandes museus, como o Grand Palais e Pinacothèque em Paris, o Vittoriano, em Roma, o Ca 'Pesaro, em Veneza, Santa Maria della Scala em Siena. Aos 10 anos, quando vivia na Etiópia com a família, decidiu ser desenhista de histórias em quadrinhos. Mas antes de se dedicar aos quadrinhos, Pratt percorreu um caminho curioso.

Depois de ter vivido em Veneza, foi parar na Etiópia junto com seus pais. Lá, passou a viver a cultura e tradição locais. Lutou no início dos anos 40 pela independência do país e por isso foi preso e enviado de volta à Itália. Durante a Segunda Guerra Mundial foi preso pelas tropas de Hitler. Ao fugir dos Nazistas se alistou nas tropas aliadas e atuou como tradutor e produtor de shows para soldados. Com o fim da guerra deu início à sua carreira de quadrinhista em parceria com Mario Faustinelli, Dino Batagglia, Paolo Campani, Alberto Ongaro, os chamados Grupo de Veneza. O grupo criou o jornal, Asso di Picche (O Ás de Espadas), que também dava nome ao personagem criado por Faustinelli e Pratt. O trabalho do grupo acabou chamando a atenção de um editor argentino, que convidou toda a equipe para trabalhar em Buenos Aires. Em 1952, Hugo Pratt lançou Sargento Kirk, a história de um desertor norte-americano que passou para o lado dos índios. Seguiram-se a ele Anna da Selva, Ernie Pike, Fort Wheeling e outros… No ano de 1959, mudou-se para Londres, onde trabalhou para o jornal Daily Mirror. Em seguida, passou um tempo no Brasil (onde dizem ter deixado uma filha) antes de retornar à Itália.

Alguns anos depois, em Gênova, graças à amizade e ao apoio do editor Florenzo Ivaldi, ainda nas páginas da revista Sgt. Kirk, desenhou A Balada do Mar Salgado, dando inicio a saga do marinheiro Corto Maltese, um dos maiores clássicos dos quadrinhos em todos os tempos. Quando Sgt. Kirk foi cancelada, Pratt mudou-se para Paris, onde de 1970 a 1973, publicou 21 histórias  curtas de 20 páginas, do personagem no jornal Pif Gadget. Mais tarde essas histórias foram copiladas nos álbuns Sob o Signo de capricórnio (capítulo 1 a 6), Sempre um pouco mais distante (7 a 11), As Célticas (12 a 17) e As Etiópicas (18 a 21). Em 1975, publicou o segundo episódio de Les Scorpions du Desert (que rendeu 5 álbuns publicados entre 1969 e 1992), quando ocorre a primeira alteração no seu estilo de desenhar, caminhando em direção á simplificação: “Queria chegar a dizer tudo com uma linha” dizia Pratt, característica adotado nos álbuns seguintes de Corto Maltese, começando com Corto Maltese na Sibéria (publicado em 1975) e Fábula de Veneza (publicada em 1977). Entre 1980 e 1991, Pratt concluiria as aventuras de Corto nos álbuns A casa dourada de Samarcanda (1980-85), A juventude 1904-1905 (1981), Tango (1985-86), As helvéticas (1987) e Mú, a cidade perdida (1991).

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De todos os trabalhos de Pratt, é impossível não destacar Corto Maltese. Em, "A Balada do mar salgado" não existe um personagem central, todos contribuem para a construção do clima da história. Mas, segundo o próprio Pratt, o caráter de Corto foi o que mais o atraiu. Talvez pela maneira de viver dos dois ser muito parecida (Mas há um pouco de Pratt em todos personagens que ele cria). Corto Maltese nasceu do encontro entre uma cigana da Andaluzia – a Niña de Gilbratar – e um marinheiro inglês da Cornualha. Não se sabe se foi realmente marinheiro em Malta, mas ele possui verdadeira aptidão para navegar. Corto é dotado de um ceticismo irônico diante de ideologias que sempre desejam impor como poderes. E esse mesmo ceticismo o torna muito receptivo as crenças dos outros. Herdou a serenidade do pai, e a paixão pela magia da mãe. Quando criança, teve a mão lida por uma feiticeira espanhola que lhe diz que Corto não possui uma linha da sorte nas mãos. Corto então faz uma linha da sorte em suas próprias mãos com um canivete, e a partir deste momento clama fazer sua própria sorte.

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As aventuras de Corto Maltese circulam o mundo e em cada nova estória não se sabe onde Corto começará e onde terminará. Os cenários para as, sempre historicamente detalhadas, estórias de Pratt passam por Etiópia, França, Irlanda, Sibéria, Oceania, Serrado Baiano, Caribe, Amazônia, Cordilheira dos Andes, China entre outros. Em todas as suas aventuras Corto encontra e conhece personagens históricos como o Barão Vermelho, o Barão Roman Fedorovic von Ungern-Sternberg, Butch Cassidy, Ernest Hemingway, Hermann Hesse, Jack London, o cangaceiro Corisco de São Jorge, e o traiçoeiro russo chamado Rasputin (Este não é bem um personagem histórico… Mas qualquer semelhança com o místico Grigori Rasputin, não é mera coincidência). Ele passa por períodos históricos como a colonização da Oceania, a guerra Russo-Japonesa, a primeira guerra mundial, a revolução russa, a revolução de outubro e pela Itália fascista de Mussolini.

O Pratt conduzia as histórias de Corto Maltese, de modo que em alguns momentos, diminui o ritmo, fornecendo uma enorme quantidade de informações, em outros, faz incríveis cenas de ação. Tudo isso aliado a um traço que aparenta ser simples, mas esconde detalhes de pesquisa visual, no que tange a cenários, roupas, aeronaves, feições dos povos, armas, embarcações e muito mais. Além dos belos desenhos a erudição e personagens complexos, também compõe as tramas de Corto Maltese. A construção dos personagens era um diferencial de Pratt. Personagens como o maori chamado Tarao (de A Balada do mar salgado) e o danaquil Cush (de As Etiópicas) não são simples estereótipos tradicionais de simpáticos selvagens ou bárbaros canibais, são personagens tão complexos quanto os demais. E claro a relação de amizade e ódio entre Corto e Rasputin. O ganancioso Rasputin, mata qualquer um sem hesitar e representa a antítese de Corto.

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"Para mim, é uma necessidade incluir na história detalhes verdadeiros e precisos, em uma forma gráfica. Quando escolhi o mundo das histórias em quadrinhos, resolvi trabalhar com seriedade. Para mim é uma necessidade fundamental. Há alguns anos essas preocupações não existiam. os desenhistas desenhavam mundos de fantasia, sem se preocupar com a documentação. Mas, para mim, isso sempre foi um necessidade, desde o começo"
Trecho de uma entrevista de Pratt, para a revista francesa Phenix de 1970.

Mas, assim como Corto, Pratt nutria uma paixão pelo esoterismo. Personagens céticos como o vil Rasputin, serviam de contra-ponto a pr8macumbeira Boca Dourada ou ao misterioso praticante de vudu conhecido apenas como Grande Mascara. A magia também servia para que as tramas de Corto tivessem um toque lisérgico como quando Corto perde a memória em "Sob o signo de capricórnio", e para recobrá-las no álbum seguinte (Sempre um pouco mais distante) faz uso de certos "cogumelos "mágicos". Ou ainda para que possa quebrar a quarta parede como é feito em As Helvéticas, onde viajando pela Suíça, Corto Maltese chega à casa do escritor Herman Hesse – O lobo da estepe – e acaba vivendo uma alucinada versão de Parsifal (cavaleiro que buscava o Santo Graal). A trama também é repleta referências a alquimia, cabala, Lewis Carroll… Essa mescla de Ficção e realidade é o que mais fascina na obra de Hugo Pratt.

Em 20 de Agosto de 1995, morre Hugo Pratt sem chegar a ver Corto Maltese, tornar-se protagonista de um longa animado em 2002, e no ano seguinte uma série televisiva de animação. Hoje Corto Maltese, é considerado uma das melhores HQs já feitas, recebeu homenagens em diversos países, ganhará uma nova história na mão de novos autores, teve alguns álbuns publicados recentemente no Brasil (Recentemente: depois de 2000) pela finada editora Pixel e pela editora Nemo. Ainda assim o personagem é pouco conhecido do grande publico brasileiro (a série animada de 2003 é transmitida aqui pela emissora TV Brasil). Mas fica aqui a dica para quem quiser conhecer e viajar pelo mundo ao lado de Corto, sem sair de casa. Corto, não criava raízes e nem se apegava a pessoas que cedo ou tarde  irá abandonar, mas causa o efeito contrário nos leitores. Pratt pode ter morrido, mas sua essência ficou em cada álbum do velho lobo do mar maltês.

"Não sei se sou considerado mesmo um bom contador de histórias. No que diz respeito a literatura desenhada, a afirmação é verdadeira e justa.  O excesso de minimalismo cansou. O que o público quer são boas histórias."
Pratt, Hugo

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Beto Magnun é um mineirinho de 23 anos que lê HQs desde os 6 anos. Atualmente tenta tenta encontrar tempo entre os estudos, trabalho e as leituras (que nunca param), para se dedicar a produção de sua própria HQ.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.