ab1Tão importante quanto a história que lemos é como nos lembramos dela. Lembro-me de meus avós contando histórias sobre cavaleiros, bruxas, vampiros e heróis diversos. Se você tem avós como os meus, da próxima vez que visitá-los, procure seus livros de contos. Te garanto que por melhor que sejam, não te trarão o mesmo sentimento. Não é porque foram escritos para criança, mas sim porque nossas memórias são mais importantes que a história em si.

Mas e se nos depararmos com contos de carcaterísticas parecidas nos dias de hoje? Não se fazem histórias como antigamente, alguns dirão. Mas fazem sim! E a primeira vez que me deparei com uma delas foi quando li Stardust, de Neil Gaiman. Já havia lido Sandman e outros livros do autor, mas foi Stardust que me fez sentir pela primeira vez que lia uma obra para todas as idades, mas com a magia das histórias de antigamente. O trunfo do Gaiman foi mais do que trazer uma boa narrativa com elementos clássicos de fantasia: foi nos dar o sentimento que sua história é tão boa como as memórias de antigamente, mesmo enquanto lida pela primeira vez!

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Por anos passei sem rever esse sentimento. Até que esses dias, de passagem por uma livraria, encontrei por acaso The Graveyard Book, adaptação em quadrinhos do livro homônimo do autor inglês. Não li o livro original, acredito que por nunca ter-lhe dado a devida atenção em meio a uma pilha de outros livros na fila, inclusive do mesmo autor. Importada, a versão em quadrinhos possuía uma edição impressionante, e por isso resolvi folheá-la. E a narrativa de suspense e assassinato das primeiras páginas, com uma diagramação criativa e simples, me chamou demais a atenção. Uma lida na sinopse, uma conferida no preço, breve procura para ver se os dois volumes estavam disponíveis…

Quando comecei a ler, já estava conquistado pelo trabalho de adaptação de P. Craig Russel e de seus autores convidados. A história nem precisava ser tão boa: após a tal sequência de assassinato, um bebê sobrevive e se esconde em um cemitério. Visitando diversos aspectos da cultura e do folclore inglês e criado pelos seres do local, o menino vive a jornada do herói até vencer seus medos, seus desafios, seus adversários e estar pronto para… vencer na vida.

Como na música I am mine, da banda de rock Pearl Jam, Neil Gaiman nos sugere que é de nossa natureza nascer e morrer, mas o que há entre é todo nosso. E por isso The graveyard book é tão belo, pois é também sobre a infância. Quando o garoto cresce, não tem a garantia que poderá voltar ao cemitério onde viveu e encontrá-lo sempre igual. Mas as memórias de suas histórias ficarão para sempre. Obrigado Neil Gaiman por despertar novalmente um sentimento nostálgico com uma história totalmente nova. Se isso não é um tipo de magia, então magia não existe. 

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— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.