capa_encruzihada-mAntes que alguém pergunte ou insinue qualquer coisa: não. Eu não estou recebendo jabá pra resenhar os gibis da LeYa/Barba Negra.

Se fosse assim também estaria andando de graça no metrô paulista, que é onde ocorrem quase todas as primeiras leituras dos gibis que resenho e volta e meia aparece como um personagem em minhas crônicas sobre quadrinhos.

Mas temos que concordar que esses marujos estão abusando. Não dá pra ficar lançando bons gibis, um atrás do outro, e achar que vão sair impunes disso.

Cicatrizes, a coleção da Revista Mil, Killofer, Ultralafa, Morro da Favela e agora esse surpreendente Encruzilhada, de Marcelo D’Salete (LeYa/Barba Negra, R$ 29,90).

A opção da editora por investir em trabalhos autorais (dos quais boa parte é nacional), voltados a um publico adulto, com temáticas nada palatáveis (Cicatrizes e Morro da Favela que o digam) se mostra acertada e já a credencia como a editora mais corajosa e interessante da atualidade.

E é justamente de coragem que o leitor precisa estar munido para ler Encruzilhada, sobretudo se morar em uma grande cidade (qualquer grande cidade). Coragem para encarar sua própria realidade, que por acaso também é aquela realidade que possuímos a tendência em achar que é um problema dos vizinhos, da prefeitura, da polícia ou do raio que o parta, mas nunca nosso.

O gibi tem cara, cheiro e cor  do desespero típico das grandes metrópoles brasileiras. No caso específico, as cinco histórias de Encruzilhada se passam na maior, mais eclética, caótica e trágica delas: São Paulo.

Mas não a São Paulo dos apartamentos de classe média do caro Jardim Anália Franco ou a ofuscante cidade do brilho hipnotizante das lojas do Shopping Higienópolis. D’Salete nos traz em seu gibi a miséria e o orgulho existentes do outro lado da muro, onde ficam aqueles que sobrevivem da forma que podem. Uma realidade urbana difícil de se encarar exatamente por sua humanidade, muito mais próxima da bárbarie do que das idílicas propagandas de creme dental.

Um retrato contundente a atualíssimo de uma civilização que não tem tempo para olhar pro lado, que vive correndo atrás de alguma coisa que ninguém sabe direito o que é, mas que envolve dinheiro e quase nenhuma honra. Um panorama desconcertante sobre pessoas comuns, com rostos e gestos comuns. E com defeitos mais comuns do que podemos imaginar.

A prostituta abrindo a carteira do cliente, o olhar ávido e platônico do voyer no outro prédio, os dedos incontroláveis do viciado em crack, oxi e o que mais vier, o filho que não veio e o que veio de presente, a faca, o dvd pirateado… nada parece escapar ao olhar perspicaz de D’Salete, prova inequívoca da qualidade de sua poesia urbana, presente em cada detalhe do ótimo roteiro.

Com um traço seco, propositadamente soturno, com sombras salpicadas de mais sombras e que envolvem as personagens e cenários, criando silêncios assustadores nas tristes paisagens urbanas, Encruzilhada tem o clima visual de um verdadeiro pesadelo e nos remete imediatamente a aquele medo irracional que sentimos nas ruas escuras ou nas vielas em que apertamos o passo mesmo quando sabemos que não há ninguém ali.

Uma obra com uma personalidade única, que a todo momento parece nos dizer “esquece, não vou abrir a camisa e sair voando e nem vou ficar de nhém, nhém, nhém com nenhum bichinho fofinho, também não vou puxar a peixeira ou matar 475 policiais com um único treisoitão, e aproveita já que tá lendo e me dá um pega desse seu cigarro”.

Isso não é pouca coisa. E se levarmos em conta que o mercado nacional de quadrinhos parece finalmente caminhar para uma boa peleja com o resto do mundo em termos de qualidade narrativa, D’Salete conseguiu um feito raro: produziu um gibi brasileiríssimo sem apelar para os estereótipos tão comuns nas atuais produções artísticas, sobretudo nas audio visuais.

Um único senão: a arte, um dos grandes trunfos do gibi, em algumas (poucas) situações compromete o fluxo narrativo, sobretudo em mudanças de ambientes dos diversos recortes espaço temporais das histórias. Mas não descarto a possibilidade de isso também ser um efeito proposital do autor, aliás, existe uma grande chance de ser isso mesmo e eu que não fui competente o suficiente para sacar a intenção.

O que obviamente, não faz a menor diferença num gibi tão bom.

E se depois de ler o gibi você ainda achar que tudo aquilo é um problema dos outros, um aviso: o último quadro de Encruzilhada guarda uma incômoda revelação sobre quem são os verdadeiros personagens do gibi.

dsalete6x

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.