"Duvide de tudo. Da verdade, principalmente."

Isso não está escrito em lugar algum, em nenhum livro de Philip K. Dick, mas é fácil perceber que esse é o princípio básico que pauta os contos de Realidades Adaptadas, livro recentemente lançado pela Editora Aleph, que reúne diversos textos desse autor que deram origem a filmes de sucesso.

Para quem não conhece a obra de K. Dick, nunca viu nenhum filme ou não faz idéia do que esperar, meu primeiro conselho é: Pare, respire, e não se apegue a nada, principalmente à realidade.

Por que isso? Pelo simples fato de que uma constante nesse livro, é a forma como o autor brinca com a percepção não só dos personagens, mas principalmente da maneira que construímos a nossa própria.

Em se tratando de percepção da realidade, nenhum conto deixa maior margem de dúvida quanto a o que é real ou não, que Lembramos a você a preço de atacado (We can remember it for you wholesale). O ponto forte aqui não é a ação, os riscos ou o próprio sentimento do protagonista, mas sim até que ponto o leitor pode confiar naquilo que leu, e no que realmente aconteceu.

Ao ver o filme de Lein Weisman, confesso que fiquei um pouco decepcionado, não pela ação e pela qualidade visual – que ficaram ótimas! –, mas pelo fato de ele ter fugido completamente do que foi proposto no original, que seria justamente o questionamento não só “o que teria sido real”, como também “a partir de onde a verdade dá lugar à memória falsa”, ou ainda “E se desde o início, nada aconteceu, e tudo se passou apenas na cabeça do sujeito?”

Bom, só de pensar nessas probabilidades qualquer fã de sci-fi ficaria curioso, não? Pois é, se isso te animou, vá ler o livro, e deixe para ver o filme sem qualquer expectativa nesse sentido.

Já em textos como O relatório minoritário (The minority report), O pagamento (Paycheck) e Equipe de ajuste (Adjustment team), o autor prefere questionar aquilo que muitos chamariam de destino: Até que ponto nossos atos moldam o futuro, e esse futuro, é ele absoluto ou pode ser alterado?

Dos três filmes, Minority Report certamente é o mais conhecido, mas não creio que seja o melhor. Como todos os filmes baseados na 

obra de K. Dick, esse também rende um bom filme de ação, o problema é que ele peca não apenas nos princípios, mas nos personagens.

Assim como os outros, não se espera que o conto seja fielmente transportado para as telas, até porque se assim fosse, não haveria material suficiente para 90 minutos e a história ficaria truncada, além de a simples transposição ser algo sem sentido e tedioso.

Ocorre porém que, no filme de Spielberg, ao tentar mudar o final – algo muito válido nesse caso –, ele se perde, deixando a coisa diferente do que devia ser, de acordo com a obra original. Talvez porque as pessoas tem uma certa resistência a filmes com final aberto… Enfim, quem gostou do filme certamente vai adorar o conto, já o contrário, não garanto.

E só para deixar claro, gostei do filme sim, e achei que ele até capta bem a ideia de "relatório minoritário", mas em certo ponto, acaba indo por um caminho divergente, em relação ao original.

Em "O Pagamento”, apesar da história ser totalmente nova, John Woo aproveitou bem os elementos temporais do livro, e construiu uma história empolgante, maximizando a ação e deixando um pouco de lado a fidelidade ao texto.

Não posso dizer que o filme é tão bom quanto, mas se tem uma coisa que o escritor sabe fazer é um bom final! E sem querer estragar a surpresa, posso dizer sem medo de errar: Enquanto o final do filme é algo de certa forma esperado, até porque seria uma coisa que qualquer um faria, já o do livro é fantástico! Não sei quanto aos outros, mas para mim, foi algo totalmente inesperado.

Agora, um momento para relaxar.

Quem nunca viu algo ou alguém uma vez, e ao encontrar outro dia o primeiro pensamento foi “Eu poderia jurar que isso não estava aqui” ou “Nossa! Lembrava-me de fulano… Mas ele não era assim…”

Pois bem! E se realmente as coisas tivessem sido alteradas, mas só você sabe? Esse é o ponto de partida para o conto mais cômico do livro. Não que se trata de um texto de humor, mas tenho certeza que daria um ótimo filme de comédia.

Nessa história, a dúvida paira sobre até que ponto o livre arbítrio realmente existe, e como seria o mundo se realmente existisse esse negócio de “Destino” ou “Plano maior”.

Tanto no escrito quanto na película, as narrativas correm muito bem, e mesmo tendo criado vários elementos inéditos, creio que não se perdeu a fidelidade à idéia inicial. Mas novamente, o final feliz do cinema nunca será páreo para o final (ou falta dele) do original.

Duas histórias chamam a atenção por terem suas premissas sido usadas à exaustão pela cultura pop: O Impostor (Impostor) e O Homem Dourado (The golden man)

Quem já assistiu Battlestar Gallactica e lembra dos Cylons infiltrados entre os humanos? Alguém lembra da Boomer? Pronto. Já contei a história de “O Impostor”.

O conto é ótimo, mas para os dias de hoje não há mais nada de tão surpreendente. Porém, vale como registro histórico, vez que foi o primeiro a lançar mão desse tipo de questão, onde não dá para saber se o que estamos diante é da corrida para provar a inocência do herói, ou a comprovação do vilão.

Quanto a “O Homem Dourado”, se considerarmos que Stan Lee criou os X-Men em 1963 e Philip K. Dick viu a história de Cris Johnson

ser publicada em 1954, é difícil acreditar que o Tio Stan não deu uma boa olhada naquele conto.

Deixando de lado o péssimo filme do Nicholas Cage, o conto que gira em torno de um sujeito que vê o futuro com a mesma clareza que vemos o passado, é uma das coisas mais geniais que já vi nesse sentido.

O que torna a história tão interessante não são os acontecimentos que se desenrolam, mas a forma como o sujeito dourado do título é descrito. Primeiro que não dá para ter certeza de onde vem, quem é, nem para onde vai. Segundo que, apesar de não falar uma só palavra, não dá para se ter certeza de que ele é um ser racional (lembre-se que se ele não é humano, a anatomia não seria necessariamente a mesma), ou se vive apenas guiado por instintos.

Não seria pertinente falar muito mais a respeito, para não estragar a surpresa do leitor. Mas deixo a nota de que nas páginas ele vai dar de cara com vários termos e elementos que permeiam o universo mutante da Marvel hoje; o que por si só já valeria a curiosidade.

Falando em curiosidade, algumas características são bem interessantes nos textos de K. Dick. Por exemplo, se o leitor prestar um pouco de atenção, vai perceber que em quase todos os contos há uma bela mulher, provocante – cada uma a sua maneira – o suficiente para chamar atenção, mas que não se enquadra em extremos. Não há nem a mulher-vítima, que sempre precisará ser salva pelo herói, nem a femme fatale.

Mulheres belas como Kely, de O Pagamento, que é bonita, companheira de Jennings – até meio frágil – mas que no final não se mostra assim tão legal; ou Lisa, sempre sob os olhares desconfiados do leitor – talvez por conta de sua situação: bonita, mas casada com um homem mais velho; e pelo fato de ter ascendido no trabalho provavelmente graças a seu romance com o chefe – mexem com o imaginário do leitor, cada uma a sua maneira.

Talvez esse seja o charme dessas mulheres: Apesar de atraentes, nenhuma segue um padrão. Nenhuma é igual à outra. Temos a companheira, a enganada, a traiçoeira, a mandona… ou mesmo aquela que você não tem certeza de que lado ela está.

Outra constante em cada texto é a necessidade de fuga do protagonista – que normalmente é um desavisado, alguém que se vê diante de uma situação absurda, nunca por ele esperada. E na maioria dos casos o principal sujeito tem que correr de um lado para o outro para fugir de alguém, se esconder, e quase sempre para poder provar sua inocência, manter-se vivo ou as duas coisas. Talvez por isso as suas obras sejam tão procuradas por Hollywood. Apesar de simples, no enredo há muito espaço para inserir elementos de ação e suspense, e com isso tornar o produto mais interessante ao público em geral.

Apesar da genialidade de idéias, Philip K. Dick peca muitas vezes na inverossimilhança de algumas situações. Está certo que quase tudo ali é fantasioso e se pauta no questionamento à realidade. O problema é que certas coisas são difíceis de engolir, como alguns casos em que o sujeito confia sua vida a alguém que ele sequer conhece, mesmo podendo ter outras opções, ou na forma como certos riscos desnecessários são assumidos sem o menor receio. Não dá para explicar as situações sem estragar as surpresas do leitor, mas esse, invariavelmente vai dar de cara com situações que será preciso abstrair e não se ater muito, para não causar prejuízo à história.

Mesmo assim, nada disso estraga a experiência. O livro é ótimo e não só pelas histórias em si, mas também para entender melhor e conhecer os primórdios de algumas idéias e conceitos hoje usados a exaustão, mas que nunca deixaram de ser revolucionários.

E gosto de pensar que a proposta desse lançamento da Aleph não seja apenas faturar em cima de um blockbuster – que obviamente é –, mas também apresentar de uma forma leve, por meio de pequenas narrativas, o trabalho de Philip K. Dick ao púbico em geral, e com isso convidar novos leitores a conhecer outras obras desse extraordinário autor. O que eu, certamente farei!

 

PS.1: Não há qualquer menção à mulher de 3 seios em qualquer conto.

PS.2: Não falamos nada a respeito de outras adaptações de K. Dick, como Blade Runner e O Homem Duplo, porque esses não tiveram seus textos incluídos nessa coletânea, mas quem sabe no futuro não falamos sobre eles por aqui?! 😉