Na vida conhecemos diversas figuras pitorescas, das quais vamos lembrar para sempre. Durante a faculdade, conheci um professor extremamente interessante. O sujeito era deveras atrapalhado, daqueles que levam três computadores para aula e nenhum funciona, que usa microfone que causa chiado, dois celulares que caem das mãos insistentemente e um óculos que teima em ficar sujo, embaçado e torto. Ele é uma pessoa muito esforçada, é verdade, e motivada em fazer aquilo que acha que é o melhor para seus alunos.

E numa desta, não fossem  suficientes todas suas particularidades, criou um sistema de avaliação ultra complicado. Para os 40 alunos da discplina, existem 5 tipos de provas diferentes, distribuídas aleatóriamente no dia da avaliação. Todas as provas possuem as mesmas questões, apenas embaralhadas. Metade do teste é puramente teórico e a outra metade são exercícios práticos. Quanto aos práticos não há problema, mas os teóricos são questões de verdadeiro ou falso organizadas em diversas perguntas para cada item. Cada erro anula um acerto. Fora os casos onde há mais erros do que acertos, ou acerto total, e a nota da questão vem quebrada em um valor percentual. Os resultados são então digitados em uma planilha, e a nota é calculada. O professor então divulga com todas as casas decimais possíveis, para não haver nenhuma choradeira nos arredondamentos. E a cereja do bolo: são duas provas feitas por cada aluno no semestre, e se você tirar uma nota acima da média da sala na primeira avaliação, garante meio ponto extra para a segunda. Se você fizer o mesmo na segunda avaliação, recebe meio ponto na primeira. Vamos supor o seguinte: você ficou abaixo da média na primeira prova, mas na segunda acabou de tirar uma nota acima, ganhando meio ponto na primeira prova. A partir do momento que você ganha meio ponto na primeira (e dependendo, seus amigos também),a média da sala muda, e você pode ter ficado acima desta vez. Aí ganha meio ponto na segunda e a média dela muda também.

Agora vem o último ponto desse estado da arte das máquinas de Goldberg, eu prometo. Imagine que por algum acaso do destino, o professor se confunde entre as provas do tipo 4 e as provas do tipo 5. Não seria o bater de asas de uma borboleta, tamanho o erro, seria uma patada de elefante. A ordem das respostas seria trocada, acarretando notas erradas para os alunos que fizeram as avaliações deste grupo. Com as notas erradas, a média da sala também sairia errada, e alunos ficariam injustamente acima da média garantindo seu meio ponto na próxima prova e estourando todo o sistema de avaliações da disciplina. Costumeiramente este tipo de coisa é confundido com um sistema complexo, impossível de ser descrito por leis da natureza e que reage de maneira aleatória a impulsos que interem na dinâmica do mesmo. Não é. O que acontece é que tem gente que consegue até dizer o mesmo da famosa parlenda Hoje é domingo.  É a banalização da Teoria do Caos.

O ponto onde quero alcançar é que o personagem de minha crônica é mais um obcecado por Reuben Goldberg, mesmo que não saiba. Rube foi um cartunista famoso por ter criado diagramas esquemáticos de geringonças cômicas que complicavam tarefas do dia a dia. No livro A Máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti, o senhor que complica as coisas fáceis se chama Leopoldo, e é funcionário antigo de um acampamento de férias. O velhinho conhece Getúlio, um garoto que sofre com as durezas da adolescência, e o encontro mudará a vida dos dois para sempre.

Fosse a Vanessa uma roteirista de Hollywood preocupada apenas com o dinheiro, e o roteiro provavelmente descambaria para o bater de asas da maldita borboleta. Mas o grande acerto deste gibi, é que a Máquina que dá título ao livro está para ser acionada por Getúlio involuntáriamente, e a mesma é um plano tão grande e intrincado que ninguém há de perceber o que aconteceu. É o acionamento de um sistema determinístico, onde cada ação desencadeia propositalmente a próxima, não há nada de aleatório aqui. Muito mais divertido que qualquer história baseada no famoso "efeito borboleta". Mas o livro poderia ser um pouquinho mais metalinguístico, trazendo capítulos um pouco mais complicados que levassem a um desfecho cuja trajetória fosse toda imperceptivelmente planejada. Quase chega a dar um nó na minha cabeça escrever isso, e me lembra muito o filme 'Quero ser John Malkovich', que aliás é muito bom.

A Máquina de Goldberg é uma grande história, os desenhos são lindos, a narrativa é boa mas o roteiro peca pela simplicidade. As coisas acontecem um pouco rápido demais no último capítulo, e a premissa era tão legal que fiquei com sentimento que a obra poderia ser um pouco mais pretenciosa, genial e definitiva. Talvez até tenha sido ideia da Vanessa fazer uma HQ mais leve e divertida, mas o tema traz tantos desdobramentos adotados de forma tão interessante (sem descambar para a mesmice), que achei que poderia ser ainda melhor. O texto até cita a Teoria do Caos, mas prefere um caminho menos óbvio. De qualquer forma recomendo, é um dos melhores lançamentos do ano e a dose de divertimento vai de acordo com o envolvimento de cada um, o que é ótimo.

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.