Eu tinha 20 anos em 1992. Havia acabado de prestar serviço militar (obrigatório, diga-se) e retomava minha vida estudantil na Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

Como boa parte dos jovens da minha turma, bebia demais, fumava maconha, era metido a “artista” (ainda demoraria uma década para eu realmente começar a me tornar um) e, claro, era comunista da unha do pé à raiz do cabelo.

AnhangabaúMas naquele 25 de agosto, apenas um dia após completar meus 20 anos, vendo quase meio milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, começava a perceber que algo estava terrivelmente errado na maneira como eu pensava e encarava o mundo.

Estávamos fazendo história ali, ou ao menos era assim que a maioria daqueles jovens pensava, unidos pelo desejo comum de forçar o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello.

Em menos de 20 dias, aquela população de jovens com as caras pintadas voltariam a se reunir naquele mesmo Vale. Um milhão de pessoas e eu não estava entre elas. Estava bêbado do outro lado da cidade.

O presidente saiu do Planalto pela porta dos fundos. Um populista tomou o seu lugar e esquentou a cadeira para o neo-liberalismo, que depois passou o ponto ao partido pelo qual tanto eu havia lutado.

Mas nem eu e nem o partido que agora comandava esta nação eram mais os mesmos.

Para mim, o encanto havia se quebrado.

Parte de tudo o que eu acreditava se perdeu nas duas décadas que separam aqueles dias de esperança e luta desses dias de melancólica e covarde impotência que enfrentamos hoje. Até o motivo daquele impeachment parece roubo de galinha perto do que vimos (tantas vezes) depois.

Conheci, graças ao Teatro União e Olho Vivo, pessoas notáveis que ajudaram a gravar a ferro e sangue a democracia da qual hoje nos orgulhamos. Mas perdi totalmente a fé nas instituições.

Por mais nobre que seja um ideal, ele não resiste à sede de poder das pessoas envolvidas.

Os partidos políticos hoje me dão a impressão de não estarem nem um pouco preocupados com valores como educação, saúde e dignidade. A vida de milhões de pessoas pouco ou nada importa, desde que o poder seja mantido. Num mise en scène que desafia nossa inteligência, políticos, veículos de comunicação e empresários ditam as regras de uma nova ordem mundial onde eu ou você não temos lugar. Onde a vida é apenas uma estatística e só é valorizada se atender a interesses bastante específicos daqueles que comandam os rumos da nação.

Num país onde um problema de saúde pública como o crack só é percebido quando atinge a classe média (o principal sustentáculo do poder), onde a educação pública é uma piada de mau gosto e onde a violência e a corrupção são praticadas impunemente (se você não for pobre, claro), o ato daqueles milhares de jovens de caras pintadas na década de 90 (eu incluído) me parece um tanto ingênuo.

Recentemente, o Gual (Gualberto Costa, cartunista e dono da livraria HQMix) me deu de presente de aniversário Pyongyang, de Guy Delisle (Zarabatana Books – R$ 39,00). Um presente bastante oportuno.

Delisle é um canadense que trabalha com animação. Após uma temporada na cidade de Pyongyang, capital da Coréia do Norte, resolveu registrar sua agradável estadia em forma de quadrinhos.

Até aí tudo normal, diários de viagem são tão antigos quanto as próprias viagens.

Não fosse a Coréia do Norte o país visitado, um dos lugares mais fechados do mundo.

A República Democrática Popular da Coréia é auto-declarada como a única Dinastia Socialista do mundo. Seu atual líder – Kim Jong-il – é filho de Kim Il-Sung, o “presidente eterno”.

O sonho socialista? Uma nação perfeita? Igualdade a todos?

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Para muito além de qualquer política estadunidense americana de difamação – outro império, tão ou mais cruel que qualquer regime totalitário do último século – o que vemos em Pyongyang é algo muito diferente dos inflamados sonhos de juventude em busca de uma sociedade mais justa.

Vemos uma nação que revisou toda sua história em torno da figura mítica de Kim il-Sung, reinventando o pensamento de uma nação inteira de uma forma que não lhe sobrasse opções. E quando não há opções, o que resta geralmente é um caminho envolto em dor e sofrimento, seja num país, numa crença religiosa, num emprego ou num casamento.

Mas com uma nação inteira, uma política baseada na mentira, onde os direitos civis e democráticos são sistematicamente ignorados e o povo é governado com base no medo, chega a ser um crime contra a raça humana.

Fomos feitos para pensar. É isso o que nos torna, para as boas venturas e para as desgraças, seres fascinantes. Nascemos para contestar a vida e a morte.

Vivermos confinados num mundo aparentemente perfeito que vive sob uma única verdade e não admite contestações, é um pesadelo contra nossa própria natureza.

Então imaginem um canadense, criado e educado sob bases solidamente democráticas, inteligente e competente, que flerta com a arte diariamente, ser obrigado por contrato a passar uma temporada num lugar onde um líder morto é venerado como um Deus e seus habitantes são obrigados a enxergar e divulgar um mundo idílico, onde tudo está bem, obrigado.

Um nação com um grande futuro planejado, embora falte comida, água e luz à população.

Uma nação sem passado. Onde a história terá que ser redescoberta um dia.

Uma nação sem presente, pois vive isolada do mundo. Onde a internet praticamente inexiste e toda a informação sobre si ou sobre o mundo é controlada, manipulada ou suprimida.

E Delisle nesse sentido foi genial.

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Pyongyang não é panfletário. O autor não enaltece uma pretensa “perfeição” do modelo capitalista que infesta o mundo com suas políticas econômicas depredatórias.

O que Delisle faz é apresentar seu conflito cultural com aquela nação. E ao fazer isso consegue engendrar uma crítica muito mais devastadora que qualquer propaganda anti-comunista. Um expediente muito parecido com o que Joe Sacco faz em seus trabalhos.

Pyongyang é um gibi brilhante que denuncia até onde os ideais podem ser corrompidos, até onde a fé num homem ou num partido pode ser tão ou mais perigosa que o ceticismo. Um gibi sobre uma perigosa política de governo, onde o poder conspurcou um homem e condenou uma nação inteira a décadas de medo, ignorância e mentiras.

Ao ler Pyongyang fico em dúvida se perdemos o bonde da história naqueles inesquecíveis meses de 1992, se realmente éramos protagonistas ou meros peões no teatro de operações armado para nos tornar aquilo que estávamos destinados a ser.

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— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.