Uma crise econômica atingindo os Estados Unidos foi suficiente para mudar o foco de visão para continentes distantes, mas logo os problemas internos, como gangsteres, estampavam-se nos jornais estadunidense um novo interesse. Assim foi a crise de 1929 para o mercado de entretenimento. Publicações baratas que aventuraram-se em outros continentes e mundos distantes, logo fariam o cenário ideal para um novo produto, os super-heróis: a cidade e seus problemas urbanos. O gênero super-herói tornou-se tão marcante que para muitas pessoas são sinônimos de histórias em quadrinhos. Elevou tanto o mercado a um novo patamar que seria imprudente buscar atalhos em estradas pouco usadas no conhecimento da História das histórias em quadrinhos sem adentrar a mitologia dos super-heróis.

Ainda que tais personagens fossem citadinos, deixando o elemento principal dos heróis da Era da Aventura – vivência em terras distantes e estranhas, esporadicamente visitavam esses lugares exóticos. A África voltou a ser palco de ações mirabolantes, feitos fantásticos e muitas – muitas – deturpações de pessoas e lugares. Se a ressonância do saber para escritores e desenhistas do novo momento do mercado era o mercado antigo de aventureiros em lugares exóticos, repetiram os estereótipos de outrora para dar continuísmo a uma África selvagem e perigosa. Os quadrinhos de super-heróis abraçaram a África imaginada que os quadrinhos da Hora da Aventura tanto usaram. Personagens de diversas editoras ousaram sair de seus centros urbanos para resolver problemas que envolviam lugares no continente africano, geralmente de natureza selvagem e em circunstâncias pitorescas. Super-homem esteve enfrentando monstruosas feras, Sandman decifrou planos audaciosos de feiticeiros, entre outras repetições de discursos. 

Curiosamente, uma região da África sempre foi retratada, o Egito, mas o imaginário sempre fez a separação dessa região, como se não fizesse parte do continente. O Egito e as regiões circundantes, sobretudo o norte do continente africano, foi cenários para diversas aventuras super-heróicas, sendo, inclusive, parte do mito de origem de personagens como Adão Negro e Gavião Negro. Não foi incomum encontrar Batman e Robin enfrentando grupos criminosos de egípcios ou mesmo o Lanterna Verde deparando-se com assassinos com traços argelinos ou marroquinos da primeira metade do século XX(ou com atraso, ainda no século XIX).

Os patos da Disney e seu extendido universo também estiveram em diversas narrativas nas regiões do continente africano, tanto ao norte quanto ao sul do Saara. Carl Barks guiou o mercado de quadrinhos da Disney a explorar diversos lugares do mundo, buscando representa-los com o mínimo de coerência, obtendo significativo sucesso, mas, também, deixando escorrer os resíduos visíveis da permanência do discurso de um continente em atraso. Entretando, desviaríamos do pretendido aqui se seguíssemos essa possibilidade de reflexão, que por sí só já merece destaque. Assim, faz uso desta informação para entender que: A África imaginada nunca foi esquecida como cenário para narrativas em quadrinhos.

O maior dos destaques nessa nova etapa do mercado, do gênero super-herói, é o Pantera Negra. Saiu em julho de 1966 na edição de número 52 de Fantástic Four, buscando o grupo de heróis protagonistas, O Quarteto Fantástico, para auxiliarem no confronto de vilões que buscavam dominar o reino de Wakanda, cidade fictícia da África no universo Marvel. Originalmente, era demasiadamente complicado definir onde se localizava Wakanda, pois a cidade apresentava uma miríade de elementos de diversos povos e culturas do continente, uma verdadeira colcha de retalhos bastante estereotipada. Um reino aparentemente tecnológico, com túneis avançados e laboratórios complexos, ainda tinha em seus portões guardas semi-nús com lanças e escudos de vime.

Algumas publicações posteriores fizeram remanejamentos da localização de Wakanda. Entre montanhas e floresta, cercada por savanas, com lagos e rios caricatos, Wakanda abraça em uma pequena localidade tudo que geograficamente constitui a África, reduzindo um continente físico a uma região específica para as narrativas em quadrinhos do Pantera Negra. Com o tempo, a localização foi apontada como parte de uma área limítrofe entre o Mali e o Níger. Durante algumas publicações de Marvel Age e do Atlas da Marvel localizou Wakanda entre a Somália, Etiópia e Kênia. No volume 4 da série do Pantera Negra, mais recentemente, fixaram Wakanda entre o Sudão e a República Democrática do Congo. 

Mas longe de apropriar-se de uma sociedade totêmica, onde uma negra pantera seria a alma do povo, a nomenclatura do super-herói era mais uma ressonância de uma particularidade social estadunidense do que uma inspiração realmente africana. Durante muitos meses, um movimento social de proteção às populações negras suburbanas das grandes metrópoles estadunidenses agiu contra a opressão policial e de grupos racistas. Sua atuação no cenário social fez com que sua auto titulação fosse rapidamente conhecida: Eram os Panteras Negras. Era um basta social à violência, que trazia de volta o sentimento de pertencimento de "Black Panther". Essa alcunha tinha alguns anos, adormecida, quando soldados negros formaram uma tropa estadunidense a atuar na Segunda Guerra Mundial. A 761ª Unidade de batalha tinha por brasão uma cabeça de Pantera Negra com os dizeres "Come Out Fighting", talvez um simbolo de orgulho para muitos soldados negros que voltaram vitoriosos da europa e apropriaram-se do legado simbólico. 

A herança do felino negro como símbolo foi seguido com filhos e netos desses sodados estadunidenses, em bairros populares, começaram a reivindicar seus direitos de cidadãos. O movimento dos Panteras Negras ganhou tamanha força que em outubro de 1966, três meses depois da sintomática publicação em quadrinhos, oficializou-se partido político. Resistiu em confrontos por muitos anos, até que choques discursivos e conflitos de práticas provocaram cisões no movimento e declinaram fatalmente. O personagem em quadrinhos, T´Chala, sofreu algumas quedas, ganhou revista própria e foi cancelada algumas vezes, por conta da referência com o partido político, até mudou o nome do personagem de Black Panther para Black Leopard, mas essa situação não durou muito, voltando a ser conhecido como outrora.

Uma quantidade considerável, então, de personagens nascidos em cidades reais ou fictícias na mitologia super-heróica da Marvel, foi gerada. Façamos aqui a separação: Personagens negros de personagens 

africanos, para considerar que alguns personagens de destaque fizeram muito mais parte da construção imagética do movimento Black Power ou de Blaxploitation do que de uma visibilidade ao continente africano. Assim nasceram Luke Cage e O Falcão, em idos da década de 70. Eram super-heróis carregados de discursos sociais de conflito racial, onde bairros suburbanos nova-iorquinos tornaram-se cenários. Mesmo mais conservadora, a DC Comics abraçou a coqueluche, com o membro do Povo da Eternidade, o Vykin the black”, em março de 1971, e até mesmo um Lanterna Verde negro, o John Stewart,  em dezembro de 1971. Mas, novamente, evitemos escapulir dos limites dos estudos sobre África, o que não é pretensão aqui. Seguiremos nossa jornada sobe a África nas histórias em quadrinhos do mainstream dos Super-heróis.

Mais do que pessoas, mais do que super-heróis negros, dentro da mitologia dos super-heróis o continente africano é representado com mais peculiaridade no que se refere à geografia humana. São as cidades que ofertarão uma quantidade generosa de informações sobre a maneira que a África é descrita, mesmo ficcional, nos quadrinhos de super-heróis. E isso fica para nosso próximo texto.

Ainda não leu a primeira parte do texto? Leia aqui: http://quadro-a-quadro.blog.br/?p=25192 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!