O que há de África nos quadrinhos? Uma pergunta de imensa abrangência, bem como o continente a que se  pretende buscar nesta imensidão. Estamos falando de um mundo complexo, com países, estados, cidades,  uma miríade de culturas e povos, que o mundo de fora (de fora da África) ainda está aprendendo a lidar. E  como esse mundo desconhecido (ou pouco conhecido) sempre permeou o imaginário do outro, nada mais  significativo que encontrar essa representação nas produções em quadrinhos.

 Para tal, faz-se interessante uma viagem no tempo. Não no tempo da África, pois isso seria oneroso demais  para uma única reflexão textual, já que temos um espaço humano riquíssimo de história, mas da história  dessa representação nas histórias em quadrinhos durante sua trajetória na Indústria Cultural. A África nos  quadrinhos nasceu, como na literatura, através de um imaginário muito mais composto de estereótipos e  concepções antecipadas do que de uma realidade prática, de fato. Mas que herança imaginária temos, antes  dos quadrinhos?

 

A antiguidade helena já retratava lugares da África sem muito reconhecimento, confrontando as diferenças, principalmente nos costumes e no fenótipo das pessoas. Heródoto tratou parte de seu trabalho “História” para tal finalidade. O egípcio Maneton e o romano Caio Plínio Segundo registraram percepções sobre a África (principalmente o norte e a costa atlântica) igualmente limitadas pelos seus critérios culturais.

O peso religioso da Idade Média pintou lugares do continente africano com inferioridade e pejorativos. A Idade Média trouxe, entretanto, viajantes árabes, como Yakut e Mohammad al-Wuzza'n, que teceram comentários mais coerentes sobre os lugares que descreveram. A era das navegações permitiram novos registros, como os de Hiob Ludolf e Alvise Cadamosto, carregados ainda de comparações que produziam mais preconceitos que fidedignidade, apesar de informações valiosas aos historiadores. Eis nossa primeira herança.

Mas os quadrinhos são frutos mais diretos dos discursos e imaginários que se formaram entre os séculos XIX e XX. As visões tidas da África, estigmatizada pela busca de superioridade europeia, fomentaram uma escravidão mercantilista e duas ondas de colonialismo. A ciência acompanhava isso e legitimava essas hierarquias evolutivas. E isso se refletiu nas primeiras produções literárias sobre a África, por conseguinte, nas primeiras representações do continente e seus mundos nas aventuras das historias em quadrinhos.

Entre tantos produtos onde imaginários favoráveis ao neocolonialismo, são as aventuras do Tintin no Congo que marcaram mais essas representações. Carregado de discursos pró colonização do território dominado pela Bélgica, ainda em vigência na época de sua feitura, em 1931, o álbum Tintin na África (originalmente “Tintin no Congo”) fornece um exemplo de como as histórias em quadrinhos de aventura abordavam a África. Perigosa, selvagem, com animais e povos inóspitos.

Com o mesmo fascínio de um continente carregado de perigos, de precariedade, os heróis da Era da Aventura registraram essa África imaginada. Assim fizeram Tarzan, Fantasma e Mandrake (este até mesmo tendo por pajem o Lothar, conhecido como “príncipe de sete nações”) quando suas aventuras românticas eram vivenciadas no continente africano. Esses heróis de aventuras, nas histórias em quadrinhos, fomentaram a construção, dispersão e legitimação de uma África carregada de inverdades solidificadas pelo imaginário. No período de crise econômica nos Estados Unidos (onde sua produção e consumo eram mais fortes) serviam de escape ficcional de uma realidade social em decadência.

Dentre as publicações que apresentavam aventureiros adentrando o mundo natural e suas feras na África, eis que a revista Jungle Tales da Atlas Comics, focando tais aventuras, apresenta Waku, príncipe dos Bantu. Obviamente não trataram com critério descrições proveitosas do povo banto, mas consola-se em registrar que a revista quebrou com o comum: não era mais um homem branco indo até a África salvar os africanos da miséria de serem o que são, agora trata-se de um herói africano de aventuras.

Ainda que inovasse na possibilidade de destaque de personagem, sendo o principal das histórias, Waku pouco se distanciou de seus colegas de profissão, os aventureiros curiosos e assombrados. Ainda confrontava feras selvagens e povos nativos rudimentares, compartilhando o status quo. Apenas o tempo começou a cobrar do mercado de quadrinhos, assim como o fez aos ambientes acadêmicos e aos espaços do entretenimento uma representação mais próxima da realidade, ainda que resistisse a abrir mão do espetáculo de horrores, onde a selvageria incivilizada deu espaço para as desgraças da AIDS e das guerras endêmicas.

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!