Mas e os quadrinhos que falam melhor da África? E os quadrinhos africanos? Bem, essas são as perguntas que certamente muita gente se fez ao terminar de ler as duas partes sobre quadrinhos e África aqui no blog do Quadro-a-Quadro. Perguntas que nascem da racionalização do tema numa mídia que é tão ampla e diversificada, principalmente quando vemos o quão vasto é o continente africano. Responder a essas perguntas também exige uma dose de racionalização e certamente teremos outros questionamentos.

A África foi representada nos quadrinhos da primeira metade do século XX através de heróis como Tarzan e Fantasma, aventureiros nos mostraram quão limitadas e estereotipadas são essas representações, como Mandrake e Tintin. Notadamente a maneira que o belga Tintin apresenta na obra Tintin na África a região do Congo que foi possessão da Bélgica como idiotizada, com suas populações vivendo com rudeza e precisando ser “amparada” pelo paternalismo europeu, como um pai rigoroso cuida de uma criança incapaz. Mas animais selvagens e tribos autóctones não são exclusividades do Tintin, nem mesmo dos quadrinhos, já que a literatura do século XIX e o cinema apropriaram-se desses discursos.

Com o apogeu dos quadrinhos de super-heróis no mercado periódico, a África serviu de cenário para a superaventura. Essa narrativa própria da era contemporânea, a tal superaventura, como nos diz o pesquisador Iuri Reblin, nos fornece um amplo espaço mítico, de diversos personagens, publicações, editoras, que a realidade verossimilhante colocará uma África imaginada pelos seus produtores e consumidores. Uma visão levemente melhorada, mas não menos estereotipada dos lugares desse grande continente. Assim teremos Ororo Munroe, a Tempestade, uma verdadeira personificação de Iansã nos quadrinhos da Marvel, sendo vista como divindade no Quênia, mas nem de longe uma representação mais segura.

Fora do eixo dos super-heróis, distante do mainstream dos quadrinhos mensais e dos super-produtos, existem espaços para se contar sobre África. Alguns produtos conquistaram qualificações mais adequadas quando se propuseram a falar sobre realidades sociais africanas. Will Eisner produziu, entre outras narrativas no estilo de contos de fadas, o mito de Sundiata: O leão do Mali, fundador do Império do Mali. A região também foi cenário para a recente obra dos franceses Béka e Marko, na narrativa em quadrinhos O Apanhador de Nuvens: Uma Aventura no País Dogon, sobre a sociedade de máscaras. Mas são visões de um estadunidense e de europeus, bastante carregadas de estranhezas.

 O trabalho da Marguerite Abouet, junto com seu marido, Clement Oubrerie, na série Aya de Yopougon, sobre diversas expectativas femininas costa-marfinenses transmite uma visão mais próxima. O vínculo intimista com a realidade da Costa do Marfim permitiu Marguerite fazer um singelo trabalho, incomum no meio. A autora nasceu no país africano, amadureceu na França, mas nunca esqueceu das memórias que lhe serviram de fonte de inspiração. Sua produção conseguiu ultrapassar barreiras políticas, mercadológicas, transpondo mares e limites territoriais, mas não está sozinha nessa batalha em se transmitir as narrativas gráficas africanas.

A luta para se manter uma produção de respeito de quadrinhos africanos é o foco principal de muitas associações de artistas e editores. Organizações como a BéDAFRICA, AfroBulles, entre outras, fortalecem um mercado africano de quadrinhos muito além dos estereótipos esperados de uma terra em conflito, com doenças, empobrecida, apresentando uma quantidade singular de narrativas. Entre seus autores mais renomados estão Hector Sonon, de Benin; Bob Kanza, do Congo; Barly Baruti e Pat Masioni, ambos da República Democrática do Congo; Kola Fayemi e Tayo Fatunla, ambos da Nigéria; Pahe, do Gabão; T. T. Fons, do Senegal; Ramon Esono Ebalé, da Guiné Equatorial; Frank Odoi, do Quenia; Farid Boudjellal, da Argélia; Mohammed Nadrani, do Marrocos; entre tantos outros artistas que falam da África de prismas menos interferido pelo imaginário.

Um mundo tão amplo, dinâmico, plural, com diversidade cultural gigantesca e histórias e narrativas a perder de vista, ainda é estranho que o mercado de quadrinhos, principalmente o brasileiro, pelas relações culturais, tenha tido pouco interesse nesse material. Existe as antológicas edições italianas chamadas Africa Comics, com bastante material produzido no continente africano por autores africanos, além da série de antologias produzidas pela Cómics Egipcis. A pesquisadora Sonia Luyten faz diversas reflexões sobre essa produção singular de quadrinhos ainda tão desconhecida pelo público brasileiro, seus trabalhos são fonte para todos aqueles que busquem estudar quadrinhos e África.

Mas agora fica difícil discursar de que não se fazem quadrinhos na África ou que as representações das sociedades, dos lugares e das pessoas, limita-se ao caricato e ao estereótipo, que a África é um lugar com animais selvagens, povos rudes e primitivos, guerras e doenças. Bem, a África tem essas coisas, assim como a Europa, as Américas, a Ásia, a Oceania, o Oriente Médio, mas também têm belezas e alegrias, avanços e sucessos. No ano de 2009, uma exposição itinerante de autores e suas obras chegou ao Brasil, a Picha: African Comics Exhibition, um importante contato, mas ainda longe do ideal. Acho que é preciso ler mais quadrinhos. Mais quadrinhos africanos.

 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!