Recentemente, peguei-me pensando nas bagagens culturais que os quadrinhistas (tanto roteirista quanto desenhista, colorista, capista, etc…) utilizam para dar uma incrementada em suas obras. Seja no pôster de um filme fictício de um personagem do universo de um autor querido (sim, O Cabra daria um bom filme de ação) ou apenas inserindo bonecos típicos da infância como forma de assinatura, o mundo ao redor diz muito sobre o aspecto criativo da história. E, inspirado no conselho do Warren Ellis sobre como escrever roteiros  "tranque seus gibis no quarto e vá à biblioteca. Leia de tudo menos quadrinhos!", fiz uma breve seleção de livros que estão meio à margem do mundo dos quadrinhos mas que podem trazer inúmeros benefícios para os processos criativos.

5 livros que todo quadrinhista deveria ler

 

1 – De onde vêm as boas ideias?, Steve Johnson

Muito provavelmente você já se deparou com a palestra do Steve pela rede ou então uma animação bem interessante que mostra, através de um infográfico, como as mais inúmeras idéias estão por aí esperando serem encontradas. Neste livro, Johnson utiliza como exemplo diversas descobertas da humanidade que estavam esperando apenas o choque entre várias idéias, desmistificando o caráter "genial" de muitos inventores. Ele nos apresenta uma proposta crível de que, através de uma rede de contatos e de comunicação, muitas idéias podem se apresentar como maravilhosas.

Sinopse: Quais são os espaços que fizeram história ao gerar níveis excepcionais de criatividade e inovação? Que processos estimulam nossa criatividade? O que podemos fazer para recriá-los em nosso cotidiano? Steven Johnson, um dos mais importantes pensadores da internet, investiga como surgem as boas ideias e as características dos ambientes em que elas são mais comuns. O autor identifica esses ambientes humanos férteis em pensamentos originais – os laboratórios científicos, por exemplo, ou as redes de informação na internet – e mostra o que têm em comum com ambientes naturais também tipicamente inovadores – os recifes de coral, as florestas tropicais, a sopa química que deu origem à vida…Criando paralelos divertidos, inesperados e reveladores, Johnson traça a história por trás de quase duzentas descobertas e invenções, e nos mostra os sete padrões fundamentais dos processos de inovação desenvolvidos pelo homem e pela natureza.

 

2 – Em águas profundas, David Lynch

Lynch é famoso por seus filmes com narrativas extremamente singulares. Quer queira quer não, o homem é muito criativo com muitas esquisitices concebidas através do simples ato de meditar. Neste livro, ele relata suas experiências com a meditação e como a mesma trouxe resultados para algumas das suas produções cinematográficas.

Trecho: CINEMA

O cinema é uma linguagem. Eu posso dizer coisas – grandes e abstratas. E adoro isso.

Nunca fui muito bom com as palavras. Algumas pessoas são poetas e têm um jeito maravilhoso de se valer das palavras para dizerem o que querem. Mas o cinema é uma linguagem singular. E com essa linguagem podemos dizer muitas coisas porque dispomos de tempo e sequencias. Há diálogos. Há música. Há os efeitos sonoros. Você tem muitos recursos. E assim pode expressar emoções e pensamentos que não poderiam ser expressos de outro modo. O cinema é um meio mágico.

Acho extraordinário poder pensar em cenas e sons fluindo juntos em tempo e sequencia, fazendo algo que só pode ser feito por intermédio do cinema. E não são apenas palavras e música; reúne-se uma variedade de elementos que realizam algo completamente novo. Isso é contar histórias. É apresentar um mundo, uma experiência que os outros só terão se assistirem ao filme.

Sou apaixonado pela forma com que o cinema é capaz de expressar as idéias que capto para fazer os filmes. Gosto de histórias impregnadas de abstração, e isso o cinema pode fazer.

 

3 – O zen e a arte da escrita, Ray Bradbury

No mundo da ficção-científica, Bradbury nos brindou com pérolas que marcaram gerações e continua influenciando muitas outras. Farenheit 451 é leitura obrigatória em algumas escolas norte-americanas e para todos que querem entender o conceito de distopia. Ele também trabalhou na televisão e em roteiros para Hollywood. O Zen e arte da escrita reúne uma série de artigos que ele escreveu ao longo da sua carreira, onde comenta o seu processo criativo, dentre eles, o conselho de ler artigos científicos dos mais diversos segmentos para se ter um amplo repertório de idéias.

Trecho: 

Corra, pare. Eis a lição dos lagartos. Observe a maioria das criaturas e você verá o mesmo. corra, pule, congele. Com a habilidade de se mover como um cílio, estalar como um chicote, desaparecer como o vapor, aqui neste instante, lá no outro, a vida cobre a terra. E, quando a vida não está correndo para escapar, está fingindo de estátua para fazer o mesmo. Veja o beija-flor aqui, não mais aqui. Como o pensamento que surge e desaparece, como o vapor do verão, a limpeza de uma garganta cósmica, a queda de uma folha. E, onde estavam – um suspiro.

O que os escritores podem aprender com lagartos e pássaros? Rapidez, certamente. Quanto mais rápido você se expressar, quanto mais prontamente escrever, mais honesto será. Na hesitação está o pensamento. Na postergação surge o esforço por um estilo, em vez do mergulho na verdade, que é o único estilo que vale uma queda mortal ou uma caçada ao tigre.

Entre fugas e voos, o que há? Seja um camaleão, mimetize a paisagem. Seja uma pedra, deite na poeira, permaneça na água da chuva da calha inundada há muito tempo do lado de fora da janela de seus avós. Seja um vinho de dente-de-leão na garrafa de ketchup tampada e exibindo uma inscrição a tinta: “Manhã de junho, primeiro dia de verão, 1923. Verão de 1926, fogos de artifício. 1927: último dia de verão. Último dos dentes-de-leão. 1º de outubro.” E, disso tudo, extraia o seu primeiro sucesso como escritor, uma história de vinte dólares, no Weird Tales

 

4 – Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson

A partir da sua incompreensão do porquê dos oceanos serem salgados, Bill Bryson parte para uma aventura: entender os mais diversos conceitos e verdades que muitas vezes não se enraízam na educação básica. A partir de uma pesquisa com cientistas que durou 3 anos, Bryson relata através de uma linguagem bem agradável os mais diversos fenômenos que nos fez chegar até os dias atuais.

Trecho:

O nível do mar, por sinal, é um conceito totalmente teórico. Os oceanos não são nada nivelados. Marés, ventos, a força de Coriolis e outros efeitos alteram consideravelmente os níveis da água de um oceano para o outro, e dentro deles também. O pacífico é cerca de meio metro mais alto ao longo da margem oeste – uma consequência da força centífuga criada pela rotação da Terra.

 

5 – A Arte de Fazer Acontecer, David Allen

O que faz um livro de administração numa indicação sobre criatividade? Idéias precisam ser organizadas, principalmente quem as teve. Neste livro, David Allen nos apresenta uma série de mecanismos para auxiliar na organização dos mais diversos projetos e atividades que temos que lidar no dia-a-dia, seja em casa, no trabalho, no lazer, nos relacionamentos. Com uma leitura simples e palatável, conceitos como fluxo de trabalho, mapa mental e lembretes são apresentados para ajudar aqueles que são refém do clássico "não tenho tempo pra isso."

Trecho:Após anos de trabalho com milhares de profissionais na linha de frente, posso dizer com segurança que virtualmente todos nós poderíamos planejar mais os nossos projetos e a nossa vida, de modo mais informal e com maior frequência. E que, se fizéssemos isso, aliviaríamos uma enorme pressão em nossa psique, além de produzirmos uma grande quantidade de resultados criativos, com um esforço mínimo.

 

 

É uma seleção subjetiva, mas creio que tais livros possam ajudar muitos que trabalham no mundo dos quadrinhos, até mesmo porque estas indicações funcionam não apenas com quem lida com a criatividade, mas, acima de tudo, com o humano.

 

E você, leitor? Tem alguma indicação para enriquecer a seleção acima? Compartilhe conosco nos comentários! 

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.