Já contei sobre os gibis de terror da minha infância e também sobre a influência de Tex nas minhas preferências.

Mas ainda falta alguém…

Há muito tempo atrás – e eu estou falando de mais de 30 anos – minha infância tinha apenas uma TV em preto e branco e muitos (muitos mesmo) gibis. Todos eles do meu pai.

Não havia internet, ipad, iphone, play station, x-box, TV a cabo ou blu-ray, nem video cassete existia e cinema era um luxo raro para nosso apertado orçamento. As crianças ainda andavam de carrinho de rolemã nas ruas. Aos que não viveram esse tipo de coisa, a emoção era formidável. Aquelas frágeis tábuas com os eixos presos com prego enferrujado alcançavam até 60 km por hora numa descida!

Não sou um saudosista… Nem faz meu gênero, mas estou contando tudo isso porque um mundo assim, para as crianças de hoje, parece primitivo ou cenário de um filme apocalíptico.
E naquele tempo uma das principais diversões da molecada era – claro – os gibis.

Ao contrário do que acontece hoje, onde as bancas são dominadas pelos comics norte americanos e pelos mangás, naquele tempo a variedade era muito grande. Mas dois gibis se destacavam nas bancas da minha infância: Mandrake e Fantasma.

Eram caras longêvos, já estavam por ali há pelo menos 25 anos (e nem estou contando os jornais, apenas os gibis de banca). Não por coincidência, ambos foram criados por Lee Falk.

O Fantasma foi o primeiro herói uniformizado da história, muito antes do fenômeno Super Homem, e sua estréia no mundo dos comics ocorreu em 1936.

E para quem não conhece sua história, o Fantasma é descendente de um cara que naufragou na costa de Bengala, na África, há mais de quatrocentos anos. Seu navio havia sido vítima de um ataque pirata. Na praia, sobre o crânio de seu pai, aquele sobrevivente jurou dedicar sua vida ao combate à pirataria e ao crime (qualquer coincidência com um certo vigilante de orelhas pontudas não é coincidência). E todos os seus descendentes seguiram o mesmo juramento, até os dias de hoje, dando a todos a impressão de se tratar da mesma pessoa. Seu nome virou lenda na floresta e começou a ser sussurado entre os selvagens, as autoridades e os malfeitores: Fantasma, o Espírito que Anda…

O Fantasma da minha infância era muito diferente do conceito de super heróis que vigora hoje em dia. Não tinha super poderes, carregava uma pistola e sempre estava acompanhado de fiel cão Capeto e do indefectível cavalo branco Herói. Trazia em seu dedo um anel com a insígnia de uma caveira, que através de seu potente soco deixava em seus inimigos sua marca , um estigma a aqueles que perpetuavam o mal.

Apenas a tribo de pigmeus que o acompanhavam sabia de seu verdadeiro segredo: o Fantasma podia morrer e, ao contrário do que acontece hoje em dia, morria e não levantava depois de uma queda nas vendas, ops, digo, depois de enterrado.

Sua ressurreição só poderia ocorrer da forma mais natural possível: sendo substituído pelo seu filho.
Um personagem riquíssimo, como poucos na história dos comics.

E foi exatamamente esse Fantasma que reecontrei numa promoção de uma dessas livrarias bem famosas mas que não dão a mínima para seu estoque de quadrinhos, na belíssima edição da extinta Ópera Graphica Editora: O Fantasma – Sempre aos Domingos.

A luxuosa edição, em tamanho gigante, emulando os velhos suplementos dominicais das décadas de 40 e 50, traz as primeiras histórias do herói, pelas mãos de seus criadores – Lee Falk e Ray Moore.

É supreendente ver a habilidade narrativa de Falk e – mais ainda – a beleza do traço de Moore nessas primeiras histórias. Entre elas, a clássica "A Volta dos Piratas do Céu", considerada uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos.
Entretanto, a leitura do álbum trouxe – inesperadamente – certa tristeza.

O Fantasma não soube envelhecer. Nos últimos anos tem sido vítima de diversas tentativas de atualização, todas, ao meu entender, equivocadas. As tentativas sempre tentam torná-lo um super herói moderno, do tipo que pode andar lado a lado com o Homem Aranha ou o Capitão América. O erro aí reside no fato que o Fantasma não pode ser modernizado exatamente por ser mais humano que qualquer um de seus parentes mais novos.

Recuperar o Fantasma para as novas gerações nem seria assim uma tarefa tão difícil, caso seus editores assumissem sua condição de cult e parassem de tentar transformá-lo no Batman.

E o exemplo vem da Itália, com outro herói da minha infância: Tex.

O Ranger – criação imortal de Bonelli e Galep – tem apresentado nos últimos anos uma evolução supreendente em seus roteiros, com histórias cada vez mais maduras em tramas longas (uma de suas características desde a origem) mas com um ótimo respaldo histórico e iconográfico, tudo isso numa narrativa ágil e moderna.

Em outras palavras, Tex assumiu sua condição de clássico e sabe que sua leitura é coisa de gente grande. E isso, por mais incrível que possa parecer, tem aumentado ainda mais sua já numerosa quantidade de fãs, atraindo desde leitores acostumados com Moebius e Hergé até guris de 12 ou 13 anos.

O Fantasma infelizmente não tem tido a mesma sorte.

A nós – velhos fãs – restam as publicações comemorativas. Aos novos fãs não resta nada, porque eles praticamente não existem mais.

 

Nota posterior à postagem: Como bem lembrou o amigo e também quadrado Lucas Pimenta, o cenário acima não é uma realidade na Austrália, onde o personagem é adorado por centenas de milhares de fãs e possui a série regular mais longêva do mundo (que a essa altura já deve estar na casa das 1500 edições, publicadas de maneira praticamente ininterrupta desde a década de 50). Pelo menos em algum lugar do mundo o Espírito que Anda é tratado com o devido respeito.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.