► Por Guido Moraes*

 

 

Preconceito. Muita gente tem preconceito sobre quem gosta de quadrinhos. Mas você leitor, tem preconceito? Sobre o quê?

Uma vez, numa comic shop que frequento, comentei que estava gostando muito do mensal “A sombra do Batman”. Um outro cliente concordou, e disse que adorava o título “As sereias de Gotham”. Eu disse que gostava também, mas que preferia “Batwoman”. Ele disse que fechava o gibi quando chegava a história dela. Preconceito!

A Batwoman original foi criada em 1956, na revista Detective Comics nº233, batizada ‘Kathy Kane’, em homenagem a Bob Kane, criador do Batman. A heroína era uma ex-acrobata que decidiu combater o crime após ficar rica. Adivinhem por que foi criada? Para combater os rumores da homossexualidade do Batman, criados pelo livro "Seduction of the innocent" do psiquiatra Fredric Wertham. Já em 2006, durante a minissérie 52, a DC trouxe de volta a personagem sob a alcunha de Kate Kane, e recriou a origem da personagem. Desta vez, Kate é uma ex-policial, expulsa por ser lésbica. Interessante a maneira como esta personagem é rondada de polêmicas, não?

Tenho certeza que o cliente da loja que que não lê Batwoman não tem preconceito em relação a sua sexualidade. Para mim, ele simplismente não aceita uma versão feminina do Batman. Mas Kate Kane não é uma versão feminina do Batman.  A abordagem dada a personagem só traz a comparação ao morcegão pelo uniforme e a luta contra o crime. Um personagem quase não interage com outro, os vilões são outros e a temática também é outra.

O roteiro, assinado por Greg Rucka é muito interessante, e os desenhos de J.H. Williams III são simplismente fantásticos. O desenhista possui um traço realista semelhante ao de Alex Ross (que criou o layout da batwoman reformulada), mas com uma diagramação de página e uma narrativa mais dinâmica. Quando se tratam de flashbacks, o artista muda seu traço e sua forma de narrativa, mostrando versatilidade e criatividade presente em poucos artistas de títulos regulares como este. Já valeria a pena acompanhar só por causa dele.

Portanto leitor, se você estava receoso de ler este título, deixe de lado seu preconceito. Se você não gosta de surpresas, ‘As sereias de Gotham’ e os outros títulos do mix que compõem a revista “A sombra do Batman” podem compensar o investimento inicial. Mas saiba que estará perdendo uma história e tanto, muito mais complexa e profunda que os títulos comuns, repleta de temas para se pensar, e artistas para se inspirar. E também vale lembrar que logo começará a ser publicado no mix a volta de Bruce Wayne. Quem sabe não é a hora ideal pra começar a comprar a revista?

*O conteúdo deste post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...