Em parceria com o GIBI RASGADO

Tem algo que eu preciso confessar a vocês: eu sempre fui um mau aluno. Não estou brincando, sempre fui medíocre. Os mais próximos dirão que meus boletins desmentem essa afirmação e o que eu estou querendo mesmo é confete.

Não é. As boas notas de meu histórico escolar são frutos de uma farsa elaborada e praticada à exaustão desde a mais tenra idade. Nunca estudei, decorava ali três ou quatro conceitos básicos e o resto confiava à minha habilidade em escrever. Por isso não tenho vergonha nenhuma em dizer que nunca conheci a fundo a obra de Fernando Pessoa (nem a dele e nem de ninguém que não usasse quadros e balões de fala em suas obras). Nunca tive a disciplina necessária para aprender as características e sutilezas de um poeta que eram vários. Meus contatos com a obra de Pessoa se resumiam a encontros fortuitos: os clássicos versos do poeta fingidor na escola, as inserções nas músicas da Bethânia e um livro comprado num sebo, lido e relido até as páginas se soltarem.

A única vez que havia visto Pessoa em quadrinhos foi na surreal aventura O Poeta, do Laerte. Um clássico dos Piratas do Tietê. Quem não viu ainda não perca tempo, está no volume 2 da recente coleção lançada pela Devir.

Mas nessa semana cruzei com algo realmente inesperado: Fernando Pessoa e outros Pessoas, do Guazzelli, com roteiro do Davi Fazzolari (Editora Saraiva, R$ 34,90).

Não há como os autores se justificarem por essa adaptação. Eles podem alegar que só quiseram mostrar a cidade em que Pessoa viveu, que quiseram prestar uma homenagem, que são fãs de poesia ou que o contrato com a Saraiva era bom.

Não vai adiantar. Outros Pessoas chega a ser ofensivo de tão bonito que é.

Guazzelli já havia nos dado um belo presente no ano passado com Demônios, adaptação de um conto fantástico de Aluísio Azevedo, mas desta vez ele resolveu nos dar algo muito maior: um gibi feito de sonhos e poesia, mas sobretudo, um gibi feito de silêncios.

Sua arte exuberante, aliada aos competentes recortes efetuados na poesia de Pessoa pelo Davi, é um convite à reflexão.

Fernando Pessoa era um cara estranho. Cismou de criar outros caras dentro de si e os colocou a escrever. Gente de mentira que se tornou verdadeira através da poesia: Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. E a eles chamamos heterônimos. Não me peçam para explicar o por quê ele fez isso ou como cada um desses caras escrevia, não conseguiria.

Sempre na companhia de Pessoa – ou de algum outro Pessoa – somos apresentados à Lisboa retratada em clássicos como Tabacaria e Livro do Desassossego.

E é por essa Lisboa desses poetas tão diferentes e ainda assim tão únicos num único Pessoa, que Guazzelli nos guia. Por suas ruas estreitas, pelos seus estabelecimentos, pela sua gente na janela olhando as pessoas que passam ou param…

A poesia de Pessoa na adaptação de Guazzelli e Davi, tal qual ocorre na música de Maria Bethânia, assume outra forma, gera novos conceitos, nos convida a outros olhares e nos traz aquela solidão amarga de tardes de domigo. Uma saudade louca de um Portugal que não conhecemos mas que também é nosso.

Não importa o quanto você conheça a obra do poeta português, Fernando Pessoa e outros Pessoas é algo novo, belo, que merece ser lido, seja com um cigarro aceso numa mesa de um Café ou sentado numa escadaria ao fim da tarde.

Nunca perdoarei Guazzelli e Davi pelo que fizeram, pois revelaram que aquele farsante que tirava dez em Literatura, no fim das contas, enganou somente a si próprio.

 

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.