38 Dias é o nome da HQ autobiográfica da ilustradora Lila Cruz, narrando as experiências de um casal de mochileiros brasileiros viajando pela Europa.

Confira a entrevista concedida pela autora ao Quadro a Quadro e conheça mais sobre esse projeto que busca ser viabilizado por financiamento colaborativo, via Catarse. E não deixe de contribuir!

 

Por Marcello Fontana e Guido Moraes

 

versalhes2QaQ: Em primeiro lugar, como nasceu a ideia da viagem? Foi por turismo, intercâmbio, trabalho?

Lila: Na verdade a ideia surgiu de uma conversa que eu e Leo tivemos. Todo mundo estava pressionando para que a gente tivesse um filho, e isso meio que estava enchendo o saco. Aí, assistindo um filme desses sobre viagens, a gente parou e pensou: talvez ao invés de ter um filho a gente deva viajar! Foi assim, nessa maluquice mesmo.

QaQ: Como foi a escolha dos países e cidades? O roteiro incluía atrações relacionadas a quadrinhos e outras artes? 

Lila: Primeiro a gente pensou Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Alemanha. Mas diante da quantidade de dias que a gente tinha (e da falta de dinheiro), tivemos que tirar a Alemanha. Fomos simplesmente seguindo uma rota no mapa: primeiro Lisboa (porque entrar por lá é mais barato), depois Madri, depois Barcelona, Paris e Londres. As atrações incluíam muitas lojas de artes, museus e livrarias. Algumas exposições de quadrinhos encontramos acidentalmente por lá. Mas eu fiz questão de caçar as lojas de arte!

QaQ: A HQ também pretende tratar dessa fase preparatória da viagem, que muitas vezes é quase tão emocionante quanto à viagem em si?

Lila: Gente, acho que se fosse retratar tudo, daria um outro livro! Foi um preparatório digno de novela mexicana. Teve doença na família, falta de dinheiro, imprevistos (de todos os tipos possíveis), muito choro, muitas tardes de devaneios, brigas, acertos, teve de tudo mesmo. Vou colocar algumas coisas, mas não sei se cabe tudo, porque 2013 foi dramático demais e metade disso se deve à viagem, haha.

QaQ: Como nasceu a ideia para fazer o quadrinho? Antes da viagem? Após? Durante a viagem já foram feitas artes in loco?

Lila: A ideia do quadrinho nasceu antes, e foi crescendo, tomando outras proporções durante a viagem. E sim, muita coisa foi feita por lá, elas vão pra parte de extras até. Dediquei muito do meu tempo lá pra desenhar.

alcoolatras_funcionais_01_webQaQ: Contar experiências de viagem é sempre um tópico agradável em conversas de amigos. A narrativa de sua HQ pretende passar esse tom amistoso ou possuirá outra abordagem? 

Lila: Acho que é um misto de história que estou contando pros amigos e diário de viagem. Porque existem impressões que tive e coisas que pensei durante a viagem que são muito subjetivas, baseadas na minha relação com as cidades pelas quais passei e com minha própria cidade. Um exemplo disso é o capítulo que falo sobre o europeu e a escada. Acho que eu e Leo nunca subimos tantas escadas na vida. Houve dias que subimos mais de 200 degraus, para chegar às torres de Notre Dame são 400. Enquanto os parisienses, os londrinos e os lisboetas subiam as escadas com muita facilidade, eu e Leo morríamos no meio do caminho. Acho que as escadas lá são uma boa representação do velho e do novo – existem lugares onde não há elevador e outros onde só se vê escadas rolantes. Adoro as diferenças, por isso observo tanto essas coisas.

QaQ: É sua primeira obra autobiográfica?

Lila: Sempre fiz quadrinhos autobiográficos, mas esse é o meu primeiro livro.

QaQ: Nos fale um pouco sobre a HQ “Nostálgica” (que aparece como possível prêmio extra do Catarse)  ela já foi concluída ou publicada anteriormente?

Nostálgica é sobre a minha infância. Tive uma infância muito divertida, muito diferente do que se acredita ser uma infância na cidade: subi muito em árvore, escalei barrancos, tomei banho em fontes. E meus amigos e vizinhos eram sensacionais: a gente tinha gincanas, coral de natal, grupos de dança no dia das crianças, era uma loucura. Era quase como uma cidade dentro de uma cidade. E sempre achei que valia a pena registrar aquilo, em algum momento. Daí a revista.

QaQ: Muitas vezes o quadrinho autobiográfico cai na armadinha do egocentrismo. Como espera lidar com essas dificuldades e tornar a obra interessante para o público? Possui alguma referência específica ou algum autor que cujo trabalho lhe influenciou diretamente sobre este aspecto?

 Lila: Eu tento tornar o quadrinho divertido pelas mais diversas razões, independente de eu estar naquele quadro. Tento também fazer com que a viagem seja a coisa mais importante, e não eu. Tenho muitas, muuuitas referências, de pessoas que adoro e que contam muito bem histórias: Alison Bechdel, Lucy Knisley, Craig Thompson, Aisha Franz, Fábio Lyra, Cris Eiko e Paulo Crumbim…e mais um bocado de gente. 

extras02QaQ: Qual público você considera que seja o alvo da sua HQ?

Lila: Primeiro, o público que curte histórias sobre viagens, depois, o público que curta quadrinhos autorais. 

QaQ: O foco da HQ será em momentos típicos de viagem com os quais nos identificaremos ou vamos encontrar experiências novas?

Lila: Acho que um pouco dos dois. Porque cada viagem é muito específica para quem viaja e, ainda assim, tem muito do que todo mundo sente quando ultrapassa a sala de embarque. 

QaQ: Antes de embarcarmos na viagem que será o seu quadrinho, o que mais precisamos saber para nos preparar? Deixe aí a sua mensagem.

Lila: Primeiro, quero dizer que espero que todos os que estão apoiando e adquirindo o quadrinho curtam muito o livro, porque ele está sendo feito para todas essas pessoas, com mais dedicação do que jamais dei a qualquer coisa em toda minha vida, haha. Segundo, peço que continuem apoiando publicações independentes, elas são muito importantes para aquecer o mundo dos quadrinhos. E terceiro, tomara que todos os que acabarem de ler 38 dias se sintam estimulados a procurar uma boa viagem para fazer..acho que isso é o que me fará sentir vitoriosa – se algum dia uma pessoa chegar e dizer "li seu quadrinho e resolvi fazer uma viagem pela América Latina! Já comprei a mochila!". Meu objetivo final é inspirar pessoas. E fazê-las rir, de vez em quando.

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.