O Lady’s Comics é um coletivo feminino de BH cujo principal objetivo é divulgar o trabalho de quadrinistas e artistas femininas, tanto do Brasil como da America Latina. Idealizados por Mariamma Fonseca, Samantha Coan e Samara Horta, o grupo realizou seu segundo encontro nos dias 29, 30 e 31 de agosto com uma programação intensa que começava às 9:00 h e seguia até às 20:00 h. Desta vez o evento foi realizado em parceria com o FIQ, Festival Intermacional de Quadrinhos que também acontece em BH a cada dois anos.

programação Lady's

Dividida entre oficinas, mesas temáticas, painéis, exposições e sessões de autógrafos, a programação atraiu não só artistas femininas locais, como pesquisadores, jornalistas e curiosos de outros estados, como eu, o pesquisador Raul Cassoni (Unesp – Franca/SP), o colunista de cultura Pop do HQueijo Rodolfo Alvez, as pesquisadoras Jéssica Daminelli e Beatriz Demboski (da UFSC – Santa Catarina), entre outros.

Foto de Glenio Campregher

Foto de Glenio Campregher

Meu interesse no evento surgiu especialmente depois de ter participado do encontro com a quadrinista feminista Trina Robbins e ter constatado que muitas das artistas presentes não só se sentiram fortalecidas após o evento, como ao compartilharem suas experiências, motivaram outras artistas a produzirem seus quadrinhos.

Apesar da necessidade de iniciativas como essas ser óbvia, ainda existe resistência à publicação e divulgação de trabalhos exclusivamente femininos. Sei disso porque ouvi pessoalmente argumentos dos mais esdrúxulos para justificar que estas iniciativas não deveriam existir. Por isso, não só afirmo de forma categórica que esses eventos se fazem e continuarão se fazendo necessários por um bom tempo (ao menos enquanto o número de publicações femininas não for equivalente às masculinas), como falei sobre isso no painel “Troca de experiências” durante o evento, quando apresentei dados de uma pesquisa acadêmica que corroboram com os objetivos das organizadoras do encontro.

Foto de Glenio Campregher

Foto de Glenio Campregher

Mas o que de fato rolou no evento? Além de um imenso sentimento de fraternidade e empatia, mesas e oficinas proporcionaram uma série de reflexões capazes de revelar algo muito sintomático: quase todas as convidadas agiram com extrema modéstia e humildade, muitas vezes como se desculpassem por estarem lá. Muitas das falas revelaram o quão mesquinha e cruel é a opressão, muitas vezes invisível, causada pelo preconceito, sexismo, machismo, humilhação, entre outras formas de diminuição de seu trabalho e que não só as desanimam de realizar seus sonhos, como em alguns casos ajuda a piorar quadros de depressão. 

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Por isso, compartilhar experiências é algo extremamente empoderador no sentido de que todas aquelas artistas incríveis, com quem tive o prazer de conviver por três dias, pudessem lembrar às presentes que ninguém tem o direito de desmerecer o seu trabalho simplesmente por ser mulher.

No entanto, embora o público alvo fosse feminino e as questões sobre as dificuldades de ser mulher em um ambiente extremamente machista serem inerentes ao tema, a organização do evento procurou focar em tópicos relacionados à produção de quadrinhos muito mais do que nas questões negativas que nos acometem.

As mesas e oficinas variaram entre produção de quadrinhos de terror, quadrinhos de ficção, produção independente, confecção de portfólios, quadrinhos e educação, roteiro, financiamento coletivo, mercado e editoras, produções da América Latina (com convidadas da Argentina e Chile), maternidade nos quadrinhos (com convidadas da Argentina e Angola), processo criativo, feiras, entre outras.

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O que ganhei em termos pessoais e acadêmicos não caberia em apenas um texto, ainda assim, alguns pontos me chamaram a atenção: a editora da Nemo, Carol Christo, forneceu um panorama detalhado de como funciona a produção e distribuição de quadrinhos de autores iniciantes. Explicou que até a disposição dos quadrinhos nas livrarias influencia demais o número de vendas e que existe uma resistência de quem é responsável pelas compras em deixar o material mais acessível ao público, por isso, em alguns casos, é comum que ela vá com alguns artistas, como a Lu Cafaggi, por exemplo, de loja em loja para conversar com os vendedores. Carol também nos contou que a venda de livros de youtubers pode garantir a produção de uma artista iniciante, já que a parte mais difícil de se lançar um artista é conseguir justificar a publicação de uma tiragem grande.

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Em todas as mesas, sem exceção, a participação do público com perguntas deixou claro que todas elas poderiam se estender por várias horas e o mais interessante é que a complexidade e profundidade das perguntas geravam respostas ainda mais detalhadas sobre os temas discutidos. Mesas como a de terror ou a de ficção produziram debates riquíssimos sobre os processos de produção, influências, dificuldades… Já nas oficinas, todas com duração de pelo menos 3 horas, os participantes puderam realizar projetos e se aprofundar em questões voltadas à profissionalização relacionada aos quadrinhos, como por exemplo entender de que forma as HQ podem ser utilizadas nas salas de aula, com as pesquisadoras da ASPAS Natania Nogueira e Valéria Fernandes, ou como roteirizar sua própria história, com Cris Peter e Ana Recalde (Pagu Comics).

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Talvez eu não precisasse ir até Belo Horizonte para constatar o quanto esses eventos são importantes. Talvez eu não tivesse ido caso a resistência a eles não tivesse me feito ouvir algumas atrocidades. Ainda bem que fui, porque foi uma das experiências mais enriquecedoras que tive o prazer de viver. Ouvir de tantas artistas que só se sentiram encorajadas a produzir seus próprios quadrinhos após terem se associado a coletivos femininos ou terem participado de eventos como o encontro do Lady’s Comics, só me confirmou que eventos e produções exclusivamente femininos são caminhos viáveis para que as mulheres possam ter seus trabalhos divulgados. Saí de lá me sentindo mais forte, disposta a não aceitar mais que insultos disfarçados de críticas tentem desmerecer meu trabalho. Que chegue logo o próximo encontro!

Foto de Glenio Campregher

Foto de Glenio Campregher

Confira mais informações nas páginas do Lady's:
 

https://www.facebook.com/ladyscomics/?fref=ts

https://www.facebook.com/events/291478081185166/

http://ladyscomics.com.br/

 

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.