"Só quando danço me liberto do tempo: esvoaçam memórias, levantam vôos de Mim. "

Mia Couto.

Às vezes ser professor de Literatura pode ser algo complicado.

A primeira coisa que veio à minha mente quando terminei de Ler La Dansarina, não foi o fato que ela se passa durante o período da febre espanhola.  Durante o segundo surto, mortal, que começaria em outubro de 1918.

O que me veio à mente, imediatamente, ainda que guardadas as devidas proporções, foi a narrativa poética de João Cabral de Mello Neto, em Morte e Vida Severina. O jovem Pedro, de Parra, não é um retirante. Mas empreenderá uma jornada tão árdua e dolorida quanto a de Severino. Tão cheia de dor por todos os cantos.  

O que me trouxe à lembrança Morte e vida, foi a imagem da mãe, morta, cercada de flores murchas, no chão de um cortiço. Uma imagem crua e tocante. A miséria, a pobreza, nunca é respeitada. Morta há 3 dias e lá deixada.  As mortes com que Severino se depara ao longo do caminho, também são assim. Retratos da miséria e da pobreza em outro contexto.

Em um segundo momento, a professora em mim foi dormir. E a mãe, a mulher, emergiu.

Eu, como Rosaria, quereria que meu filho vivesse. Eu, como Rosaria, sacrificar-me-ia para que ele tivesse essa chance. E o jovem Pedro, recuperado de sua Dança com a Dama dos destinos finais, ao ver sua mãe deitada no chão, apodrecendo, fez o inesperado para alguém tão jovem: muniu-se de coragem e decidiu que sua mãe descansaria devidamente. E assim, nasce a narrativa doce, comovente, instigante e corajosa de Lillo Parra.

Nosso pequeno herói, assim como Odisseu, enfrentou inúmeros perigos até encontrar com seu Caronte e pagar-lhe seus óbulos. E como  Zé, de o Pagador de Promessas, de Dias Gomes,  teve de lidar com a Lei de um padre (moribundo) para conseguir dar descanso à sua mãe. E, ao reclinar-se para rezar,  encontra-se com La Dansarina

Eu poderia escrever horas, muitas linhas mais sobre essa narrativa gráfica, que une história ao sentimento. Imagem como uma manifestação de arte pura, como a professora que sou.

Mas, leitora e mãe, prefiro recomendar a leitura. Não quero estragar o prazer da descoberta. Não quero impedir as lágrimas de catarse, que virão, ao final da leitura.

— Dani Lhoret é uma aficcionada por quadrinhos, que um dia resolveu fazer Grego na Faculdade de Letras apenas para ser diferente e não suficiente foi insana para se tornar Mestre em Teoria Literária escrevendo sobre Vampiros, quando ninguém falava deles. Hoje vive com um gato doido, um cachorro insano, sua filha linda e seu marido em uma casa repleta de livros que os amigos apelidaram carinhosamente de "Mansão Foster para amigos imaginários". Nas horas vagas orienta alunos mais loucos ainda sobre literatura e quadrinhos.