Léo 1Quando você começa a estudar quadrinhos academicamente, aprende que uma história pode ser analisada sob praticamente qualquer perspectiva. Logo que começo a ler uma HQ, já imagino qual viés eu posso usar para analisá-la e acredito que o mesmo aconteça com qualquer outra pessoa que estude HQs.

E se eu dissesse que o mesmo acontece com um tarólogo? Se eu dissesse que este tarólogo não só adora HQs, como também consegue fazer as mais incríveis analogias entre os quadrinhos e as cartas do Tarot? Eu fiquei imaginando se ele enxerga uma relação entre as cartas e os quadrinhos toda vez que começa a ler uma HQ e, como sou muito curiosa, resolvi compartilhar um pouco mais sobre ele.

Leonardo Chioda nasceu em Jaboticabal, interior de São Paulo. Graduado em Letras pela UNESP, é escritor, tarólogo e vem estabelecendo uma relação interdisciplinar entre o Tarô e o cotidiano, a literatura, o cinema e a cultura popular. Além da leitura de imagens, também se dedica a palestras e workshops. Fundou recentemente a ARCANA MUNDI, empresa de produção de textos que gerencia o conteúdo do Café Tarot, das matérias para diversos portais como MSN e das análises de Tarot do Personare. Tem verdadeiro fascínio por HQs e conheceu o mundo como o quintal de casa a partir do bairro do Limoeiro, em que vive a Turma da Mônica. Como poeta, lançou ‘Tempestardes’, livro premiado pelo ProAC 2012 e lançado pela Editora Patuá.

Aqui no QaQ eu disponibilizo um bate-papo exclusivo que tivemos pelo msn do Facebook. Espero que curtam:

 

O que veio antes: o gosto pelas HQs ou a paixão pelo Tarot?

 

Boa pergunta. Ambos os gostos se perdem na minha infância. Folheava e conhecia personagens de HQs bem antes de aprender a ler. O Tarô, por sua vez, começou comigo há muitos anos, quando eu via uma mulher lendo as imagens para a minha avó, na cozinha. Sempre era convidado a me retirar, claro, mas testemunhar algumas vezes a disposição das cartas na mesa foi o suficiente para que, num futuro relativamente distante, eu começasse a garimpar os livros certos sobre o assunto e me enveredar pela arte da combinatória. Tanto o Tarô quanto os quadrinhos são elementos da minha infância que me acompanham e vão me acompanhar por todo o sempre.

 

E como foi que começou a relacionar os quadrinhos com as cartas?

 

O ofício de um leitor de cartas se assemelha ao de um narrador. É uma forma de narrativa. São histórias dos outros, histórias de nós mesmos e também histórias fictícias. Muita coisa é possível de se ver com um Tarô em mãos. No momento em que deito as cartas e (re)constituo situações vividas pelas pessoas ou desvelo prognósticos para um futuro não tão distante, me vejo na condição de demiurgo. Tendo os elementos narrativos, constrói-se uma história. Tendo as cartas, o contexto e as diretrizes estipuladas, temos uma leitura de Tarô. São os símbolos que aproximam um universo ao outro. E os arcanos nada mais são que imagens arquetípicas, cenas de modelos estabelecidos, universais. Isso significa que podem ser feitas analogias entre uma personagem e uma carta do Tarô, assim como uma circunstância específica poderia ser ilustrada por uma outra imagem do baralho. São aproximações. Em um dos meus ensaios no Café Tarot, associo o arcano Nove de Espadas, comumente associado a pesadelos, angústias, remorsos e terrores noturnos, à casa de Desespero, um dos sete Perpétuos criados por Neil Gaiman, em Sandman.

 

Você enxerga uma relação com as cartas em todas as HQs que lê?

 

Quando se tem o arcabouço simbólico bem fresco e atuante, é quase impossível não fazer associações. Elas surgem o tempo todo! Posso passear pelo universo de Sandman, como já citei, e encontrar mil nuances e possibilidades de arcanos em situações e personagens. Em alguns momentos, por exemplo, Delírio pode ser vista como O Louco ou, ainda, como o perpétuo regente do Sete de Copas, que é uma carta de ilusões, fantasias, belezas e loucuras. É também a carta dos artistas, dos poetas, do devaneio. O interessante é fazer essas aproximações com o devido cuidado, já que não são únicas e nem absolutas. São possibilidades, não verdades. O sentido em encontrar cartas de Tarô em HQs, em filmes e em elementos do cotidiano é o enriquecimento simbólico e também analógico, indispensável a um leitor de imagens. Quanto mais se exercita a visão, maior o repertório de associações. Posso ver num barman misturando as bebidas uma faceta d’A Temperança, por mais que pareça absurdo. Esse exemplo inusitado é a prova de que o ato de misturar o conteúdo de dois jarros é essencial para que seja feita a mistura necessária, a operação alquímica. A postura das cartas, assim como o seu universo, é humano. Não é egípcio nem transcendental como tantos imaginam. As cartas são espelhos da nossa sociedade.

 

 

Em quais delas você sabe ou imagina que o autor usou as cartas como referência para escrever uma história?

 

O exemplo literário mais nobre envolvendo as cartas é O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino. Ele criou diversas histórias a partir do embaralhamento e da disposição de dois Tarôs específicos: o de Marselha, mundialmente conhecido, e o Visconti-Sforza, um dos protótipos clássicos. O resultado é um livro de experimentos sensacionais, porque o escritor recriou histórias consagradas da literatura italiana e construiu outros absurdamente geniais, que até poderiam ser mostradas sem o artifício das cartas [que em todas as edições e traduções trazem as cartas selecionadas ao lado do texto], funcionaria muito bem.

 

Alejandro Jodorowsky se valeu dos símbolos do Tarô para temperar a trama sensacional de Incal, ilustrada pelo grande Moebius. Alan Moore, em Promethea, também usa os arcanos. Neil Gaiman, mais uma vez, tem as cartas como referência em Os Livros da Magia. Como vários dos meios de se criar um história estão ilustrados num baralho de Tarô — figuras de poder, situações extremas, objetos e mesmo sentimentos —, é delicioso deitar as cartas e escrever um roteiro. Tenho várias. O Tarô também é uma ferramenta de escrita criativa. Um oráculo narrativo.

 

Qual é a sua HQ favorita e por quê?

 

Sandman, sem dúvida. Gaiman conseguiu criar algo único, universal. É uma releitura tão mágica quanto fiel à nossa realidade. Ele resgata e mesmo sugere um olhar mais demorado sobre nossa essência. É um trabalho inspirador porque nos aproxima dos nossos sonhos, dos deuses e de nós mesmos. Como o Tarô. Exatamente como o Tarô.

 

Leu alguma recentemente? Qual seria sua primeira análise?

 

Sempre que posso releio Sandman e Watchmen, do Alan Morre. São meus preferidos, não abro mão. Mais releio do que leio. Li Daytripper, dos gêmeos Bá e Moon e fiquei extasiado. Um outro que reli há pouco foi V de Vigança, outro clássico que consta na minha biblioteca. É significativo porque ali existem personagens tão fortes e uma causa absolutamente nobre, merecedor de uma análise profunda com um baralho aberto sobre a mesa (que já comecei a fazer e talvez em breve traga a público). Explodir o Parlamento é um cenário que se encaixa perfeitamente na moldura d’A Torre — arcano que pressagia dissolução, rompimento, quebra. A estrutura vigente sendo derrubada, o gran finale.

 

Como funciona a leitura do Tarot para uma HQ ou filme?

 

Em V de Vingança, por exemplo, V é a mais complexa e a mais poderosa personagem, impossível de ser ‘arcanizada’ em apenas uma carta. Logo no começo, ele se define: I’m the king of the Twentieth Century. I’m the Bogeyman. The Villain. The black Sheep of the Family. Tem-se então o anti herói, que pode ser visto na figura d’O Diabo, por exemplo, proclamada figura de autoridade que propõe um choque ou mesmo a destruição da estrutura ditatorial instituída por Adam Susan, que se encaixaria na figura d’O Imperador, e Prothero , a Voz de Londres (ou The Voice of Fate), que é um nítido reflexo do arcano O Papa. — homens inflexíveis, pretensos do poder e regentes da moral e dos bons costumes a qualquer custo. As possibilidades de associação são inúmeras, mas para que haja coerência, é crucial conhecer a estrutura clássica do Tarô e os atributos de cada carta.

 

Assim, tendo isso por base, e também a noção de que as associações são possibilidades e não verdades indiscutíveis, existem alguns métodos de leitura para HQs e filmes. Um deles é estipular um número de cartas a serem sorteadas para uma obra e fazer uma análise das cartas de acordo com as situações do roteiro. Outro método é notar quais são os elementos mais marcantes que determinam os rumos da narrativa e aproximá-los do Tarô. É o que eu faço no blog, com filmes, romances, poemas e HQs.

 

 

Teria uma carta para o Quadro-a-Quadro?

 

Bem, abri o site e tirei três cartas para três quadros:

 

Quem é o QaQ?

O que oferece, qual o diferencial?

Prognósticos para um futuro próximo.

 

A primeira carta foi A Morte, que assusta a tanta gente por mostrar um esqueleto ceifando cabeças em um campo repleto de joias. Ela vem dizer que o QaQ é uma constante mutação. Textos, referências, pautas e humores é que temperam a página. Existe aqui a atmosfera da impermanência, já que os quadrinhos mudam de acordo com o leitor, com a releitura. Aliás, retomando o V de Vingança, é a figura A Morte que vemos quando V oferece uma rosa à doutora Delia Surridge, uma das responsáveis pelos experimentos no qual o protagonista fora submetido no instituto Larkhill, onde eram confinadas pessoas consideradas subversivas: homossexuais, judeus, negros e revolucionários. Depois de matá-la enquanto ela dormia, o último suspiro de Delia foi vendo a verdadeira face de V. Nessa sequência, nada mais que o arcano A Morte. Quanto ao QaQ, nada mais que uma referencia única sobre HQs, tão acessível e imprevisível como O Arcano Sem Nome.

cartas

 

A segunda é O Mundo. O QaQ pode oferecer tudo e tem o potencial de abarcar o todo. Parece generalizado demais, mas é casando facções diferentes da Nona Arte que fazem da página uma referência genuína. O potencial é grande. Já pensaram em traduzir os artigos ou convidar quadrados internacionais? Fica a dica.

 

A terceira carta do Tarô, que traz alguns prognósticos para o futuro, é A Roda da Fortuna. Carta regida a deusa da sorte e do acaso, ela revela que possíveis percalços tendem a colocarem o QaQ sob alguns testes. Mesmo com a correria cotidiana, a página vai exigir atualizações cada vez mais constantes. É favorável manter o pique e inovar nas formas de divulgação. O QaQ passará por redefinições gradativas, porém essenciais para continuar oferecendo memória, novidade e informação com a melhor qualidade.

 

Obrigado pela oportunidade. Sucesso absoluto a todos os envolvidos neste projeto único. O Tarô se mantém à espreita, página a página, quadro a quadro. Um abraço.

 

Léo, muito obrigada pela entrevista e por ser sempre tão atencioso. Desejamos muito sucesso a você também!

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.