Se 2015 trouxe maior visibilidade para as quadrinistas brasileiras, 2016 parece ser o ano em que colheremos os louros das ações realizadas no ano passado: em sua página do Facebook, a editora Nemo publicou uma nota divulgada no Jornal do Brasil anunciando que a maior aposta da editora serão as artistas femininas.

“ Editora Nemo aposta nas mulheres em 2016

A aposta principal da Editora Nemo para o 2016 são as autoras mulheres. O objetivo, informa a editora, vai além de dar visibilidade e combater o preconceito no segmento. “Queremos também mostrar que mais do que nunca as mulheres têm produzido quadrinhos de qualidade no mundo todo, e os lançamentos da Nemo deste ano serão um reflexo disso”, destaca Eduardo Soares, editor-assistente da Nemo.

De acordo com Eduardo, o critério de escolha na formação da grade, inicialmente, não passava pelo gênero, aconteceu naturalmente. “A conclusão é que elas entraram no nosso catálogo por mérito próprio, porque as obras são geniais. Depois que constatamos esse predomínio, outros nomes vieram para reforçar o time.”

Questão de gênero, abuso sexual, misoginia e responsabilidade social são os principais temas abordados em algumas das publicações. Entre os títulos estão aventuras juvenis como Os diários de Amora (Les Carnets de Cerise), de Aurélie Neyret, contemporâneos como as graphic novelsDrinking at the movies, de Julia Wertz, Becoming Unbecoming, de Una, e a adaptação em quadrinhos do romance Orgulho e Preconceito, o clássico de Jane Austen.”

 

Essa iniciativa não parece ser uma coincidência, pois quem acompanha os eventos do meio, sabe que o que não faltou em 2015 foi muita polêmica e esforço de muitas mulheres para que essas artistas pudessem ter um pouco mais de visibilidade ou até, alguma visibilidade.

Coletivos e páginas como Lady’s Comics, Mina de HQ e Estúdio Complementares têm unido esforços para publicar antologias exclusivamente femininas, além de organizarem eventos presenciais para troca de experiências. Prova disso já pode ser verificada no último FIQ que teve maior participação feminina comparada às edições anteriores. A Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial também reuniu em agosto de 2015 algumas dessas artistas para um encontro com a quadrinista americana Trina Robbins, conhecida por seu ativismo no feminismo e por ser historiadora das quadrinistas americanas raramente mencionadas em outras publicações.RSCN4500

As publicações exclusivamente femininas têm sido a saída encontrada para que estas artistas consigam publicar seus trabalhos, uma vez que antologias mistas, organizadas por homens, costumam deixá-las de fora. Aliás, não só as antologias, como as premiações também: se muita gente acabou descobrindo o quanto o universo dos quadrinhos é machista devido ao episódio do prêmio Angouleme, na França, onde vários artistas como Manara pediram para ter seus nomes retirados da lista de indicados devido ao fato de não haver uma única mulher entre eles, quem vive no meio sabe o quanto ainda temos que lutar para que essa visibilidade cresça cada vez mais.

O que me surpreende é que foi preciso que um homem como Manara ou uma editora como a Nemo dissessem: “Olhem, as mulheres têm trabalhos estupendos” para que os outros homens parassem para prestar atenção e concluíssem que não estamos pedindo nenhum tratamento diferente, apenas que sejamos tratadas com igualdade. Um corpo editorial composto quase que exclusivamente por homens muito provavelmente não verá nada de interessante em uma história feminina que não aborde um tema que lhe diga respeito diretamente, por isso, não faltam convites para histórias eróticas, claro, mas quando se trata de alguma questão exclusivamente voltada às mulheres, o discurso recorrente, e que já ouvi de muitos colegas é: “Ah, não podemos premiar/publicar alguém só por ser mulher (oi? Quando foi que isso foi solicitado?). “Quando tiverem trabalhos à altura dos nossos, serão publicadas”(cof, cof…quem decide mesmo esses critérios?)
 

Então, colegas, aqui está: Se muitos não conseguem enxergar o óbvio, alguém está enxergando. Parafraseando Manara em seu Face sobre o caso de Angouleme, “O que seria das histórias em quadrinhos sem as mulheres?”. Hoje já correspondemos a uma boa parcela do mercado consumidor de HQs, logo, não é de se espantar que procuremos publicações que falem mais diretamente a nós. Representatividade importa muito e pude observar isso no encontro com a Trina Robbins, quando conheci pessoalmente muitas dessas incríveis artistas e percebi que elas não têm mais medo, simplesmente porque sabem que não estão mais sozinhas.
Portanto, parabéns à Nemo! Que 2016 seja mesmo o ano da mulheres nos Quadrinhos e que mais editoras sigam o mesmo exemplo.

Para saber mais:
http://historiadoensino.blogspot.com.br/2015/08/encontro-com-trina-robbins-na-gibiteca.html

http://historiadoensino.blogspot.com.br/2016/01/quadrinhos-mulheres-e-sexismo.html

http://minasnerds.com.br/2016/01/07/mulheres-que-fazem-quadrinhos-e-o-boicote-a-angouleme/

http://minasnerds.com.br/2016/01/05/um-guia-ia-dos-quadrinhos-das-minas-na-internet-2-/

http//www.youtube.com/watch?v=3v0LNZ4dr_Q

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.