Dia 15 de Janeiro de 2012 e estava eu a horas viajando, sem acessar a internet. Quando finalmente (após descansar, tomar um banho, jantar, me adaptar a cidade e ao fuso) me conectei, levei um susto. O Brasil inteiro falava da Luiza que estava no Canadá. Independentemente da utilidade disso, o que me interessa nesse momento é discutir o fenômeno que faz com que tais idéias sejam compartilhadas, transmitidas e divulgadas tantas vezes, que até minha vó, que nunca se conectou na internet por conta própria, deve saber quem é a Luiza.

Este é apenas um exemplo de assunto que se espalha como um vírus. Com a ajuda do Youtube, Facebook e Twitter, notícias falsas, notícias verdadeiras, propagandas, vídeos, fotos ou qualquer outra coisa que produza algum comentário acaba se espalhando, e as consequências disso podem ser boas e ruins.

Para acompanhar esse tipo de acontecimento, escolheu-se popularmente entre outros, os termos Viral e Meme. O termo Meme remete ao conceito criado por Richard Dawkins em O gene egoísta, de 1976, onde ele define como o análogo do gene (da genética) para a memória. É como uma unidade mínima de informação que se propaga de cérebro pra cérebro, se multiplicando, e aí se atrela ao conceito de vírus (se deixarmos de lado o lado ruim da virose). Mas dentre os vários tipos (se é que podemos classificá-las) de informações que viralizaram na internet, temos alguns personagens que muitas vezes se confundem com o próprio conceito de Meme, e muitos (inclusive eu) achavam que este era apenas o apelido deles. Como o que nos interessa nesta análise são justamente estes personagens, vou tomar  a liberdade de chamá-los de Memes, mesmo sabendo que o conceito é muito mais amplo.

Com o tempo, e acompanhei isto gradativamente, pequenas tirinhas e histórinhas com piadas começaram a aparecer em sites de humor. Blogs como o Jacaré Banguela já possuíam anteriormente um espaço para isso,  sempre se encarregando de publicar tirinhas de novos talentos brasileiros e internacionais, que começavam seus trabalhos publicando justamente na internet. Aqui no Brasil, alguns como o Will começaram publicando seus trabalhos autorais online, e outros começaram traduzindo tirinhas internacionais e criavam as suas a partir daqueles personagens que se popularizavam pelas gringas.

Em um determinado momento, personagens recorrentes começaram a aparecer. Não sei quando e nem quem criou os primeiros, mas com isso novos blogs foram lançados para abordar este tipo de humor. Tais personagens  foram criados aparentemente para representar um sentimento. O primeiro que me lembro de ter visto foi o Troll. O rosto estilizado com o sorriso maldoso aparecia sempre que a tirinha continha alguma sacanagem de um personagem contra um outro. A chamada “Troll Face” personificava a sacanagem.

Em seguida, outros foram aparecendo, como por exemplo o Forever Alone, um rosto triste e gordo para representar o sentimento de solidão. Surgiram também* o Fuck Yeah, o FUUU e o mais interessante, os baseados em pessoas ou personagens reais. Uma foto do jogador de basquete Yao Ming** gargalhando serviu para criar um meme que representa o sentimento de alegre desprezo diante de uma situação ruim. É aqule famoso sentimento de “me ferro mas me divirto”. 

Com o tempo, e dada a facilidade de utilizar programas como o Paint e o Photoshop para manipular aqueles rostos, o pessoal foi tomando gosto pela coisa e foi criando suas próprias histórias. Sites como o 9gag (hospedado nos EUA) permite aos usuários hospedarem e divulgarem seus próprios trabalhos para todo o mundo ver (literalmente).  Os personagens, de aparente domínio público, passaram a ser utilizados para descrever as mais diversas situações cotidianas.

 

Mas aí mora uma divisão que me fez pensar. O público que lê este tipo de tirinhas não é o mesmo que lê as tirinhas tradicionais. Tenho amigos que até criam suas próprias tirinhas com memes, mas não sabem quem são Laerte, Angeli e Glauco, e nem leem nenhum quadrinho clássico seja ele no jornal, numa revista ou na internet. Por outro lado, tenho amigos que já leram todos os trabalhos dos Três Amigos, mas não devem ler uma única tirinha com Memes por dia.

Primeiramente, estas montagens com Memes podem mesmo ser consideras quadrinhos? Analisando a definição de Arte Sequencial criada pelo grande Will Eisner ("o arranjo de fotos ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma ideia"), não consegui notar nenhuma diferença entre os dois tipos de tiras. Para mim, ambas são formas de se fazer quadrinhos.

Será então que os leitores de tiras clássicas não leem nenhum tipo de quadrinhos na internet? Bom, certamente uma parte dos leitores não lê. Mas, entre meus conhecidos, e os blogs que acompanham, por vezes já os vi comentando as tiras do Vitor Cafaggi e os quadrinhos semanais publicados pela IG, por exemplo. Mas, se o meio de publicação é o mesmo, o que os afasta dos Memes?

Bom, após estas análises mais óbvias, comecei a pensar no estilo das duas. Observei que as tirinhas clássicas costumam abordar um universo maior do que apenas situações cotidianas, mas acho que não seria esse o grande diferencial. Notei também que alguns dos quadrinistas (muitas vezes propositalmente) não possuem um traço mais caprichado do que as tirinhas dos Memes, a questão não é a estética.

E então me olhei no espelho. Quantos autores clássicos de tirinhas eu realmente leio? O que achei quando comecei a ler? Laerte, Glauco, Angeli, Fernando Gonsales foram os primeiros que tive contato, com certeza. Mas me lembro muito bem que não gostava dos três primeiros. Achava a maioria de seus trabalhos muito difícil de entender, e achava que algumas não tinha sentido algum, sem ver a beleza do non-sense do Angeli em Crise, por exemplo. Níquel Náusea foi o que primeiro me cativou, e é até hoje o meu preferido. Suas tirinhas compreendiam piadinhas simples sobre o mundo animal, capazes de divertir desde um adulto a uma criança. Mais tarde conheci a Rê Bordosa, Os Scrotinhos, entre outros. E com a Muchacha, resolvi reler tudo do Laerte. Me arrisco a dizer que minha leitura sofreu um processo evolutivo. Comecei a entender e apreciar mais tiras, a lê-las e entendê-las em sequência. A Muchacha é um romance de folhetim, o qual não apreciaria se fizesse uma leitura descontínua. Enfim acho que estou chegando a algum lugar.

De certa maneira, os quadrinhos de Memes não são histórias que dependem da leitura dos capítulos anteriores. Apesar de podermos classificá-los numa antologia, com diversas tiras sob o mesmo tema, acredito que o ponto notável sobre tudo isso é que não ter a necessidade de ler todas as histórias facilita a vida do leitor ocasional. Veja bem, foi por isso que meu primeiro autor preferido foi Fernando Gonsales. Ele publicou diversas antologias do Níquel, mas podemos ler suas tirinhas alternadamente sem perder a piada. Resumindo, acredito que a Continuidade é um dos porquês os leitores de Memes não se interessam (incialmente) pelos quadrinhos clássicos. Mas isso explica pouca coisa.

Níquel Náusea

O segundo ponto notável é um pouco mais complicado. Como disse anteriormente, não entendia as primeiras tirinhas e por isso não gostava. Quando surgiram os Memes, não tive dificuldade alguma em compreender as primeiras tiras. Pela temática jovem, imagino que foram também feitas por jovens,  em uma linguagem na qual todo mundo se entende. Convenhamos, é mais fácil que gostemos da piada quando a entendemos. Notei então que para um público que não estava acostumado a ler quadrinhos, era mais fácil compreender os Memes. Bastava estar antenado no mundo Jovem, não precisava passar por toda aquela evolução que tive que passar para entender algumas tiras clássicas. Mas estar antenado dessa maneira, compreender e processar o turbilhão de informações que se transmite hoje, conhecer todas as novidades, e mais importante, saber onde pesquisá-las não é fácil de se conseguir. Os jovens de hoje acompanham muito mais facilmente a evolução tecnológica do que os adultos, e os Memes se apoiam diretamente nisso.

Observando então o outro lado da mesma moeda, leitores adultos ou leitores clássicos devem sentir alguma dificuldade em entender as tais tiras dos Memes. E assim caímos no ponto que considero crucial, a Compreensão. Se por um lado as tiras clássicas possuem autores capazes de passarem mensagens complexas o suficiente para não serem óbvias e mesmo assim serem lindas, os Memes são capazes de passar mensagens simples, mas em uma linguagem que nos remete a sentimentos passados de nossa própria vivência, refletindo num teor autobiográfico que por vezes também pode ser encantador. Mas ambas só fazem sentido para quem, com suas próprias experiências, pode entendê-as.

Por fim, nem tudo que reluz é ouro. É claro que em ambos os meios, existem tiras de qualidade e outras de nem tanta. Mas o meu propósito era pensar por que os leitores das duas tiras eram diferentes, e não simplificar a análise a uma opinião pessoal de qualidade. E aí me dei por satisfeito.

Por fim, gostaria de deixar a proposta de união: O que vocês acham da possibilidade de gente que nunca pensou em fazer quadrinhos publicarem suas primeiras tiras utilizando memes? Até onde vocês acham que isso pode chegar?
 

* Conheça diversos Memes em: http://blog.memestiras.com/p/conheca-cada-meme.html

** Conheça os Memes baseados em fotos em: http://www.techtudo.com.br/rankings/noticia/2012/04/top-10-pessoas-que-se-tornaram-piada-na-internet.html

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.