Sou um entusiasta do financiamento colaborativo há mais de cinco anos, ou seja, desde antes  de chegar ao Brasil. No Catarse, comecei a contribuir desde o primeiro projeto de quadrinhos, que foi ao ar em 2011.

Agora terminamos a campanha da Máquina Zero, minha primeira vez do lado dos realizadores (o realizador oficial e cabeça da equipe foi o Sérgio Barretto, mas fiz parte do que chamamos de Sala de Controle da Máquina).

A verdade é que, ainda hoje, uma campanha de financiamento coletivo é um tiro no escuro e cada compartilhamento de experiências é válido. Daí que eu resolvi escrever esse post, passando um pouco do que aprendi como apoiador e estando do lado do realizador da M0.

Vamos lá, então! Primeiro uns toque para os realizadores:

1.    Conte as suas moedinhas. Vamos supor que você precise de R$10.000,00 para concretizar seu projeto (contando o orçamento total, incluindo a comissão do site de financiamento). O ideal seriam R$15.000, mas com R$10.000 você consegue fazer com uma boa qualidade. Contadas as suas moedinhas, você tem R$3.000 de recursos próprios que, eventualmente, poderiam ser utilizados. Quanto vai ser sua meta? Respondo sem dúvida: R$7.000!

Estabeleça sua meta com o valor mínimo necessário, por que se você tiver que injetar dinheiro próprio para alcançar a meta, vai tirar do recurso que já é seu a comissão do site de financiamento. Bom lembrar que essa comissão vai de 12% a 17,5%. Não é pouca coisa!

Imagine que você tenha que colocar esses mesmos R$3.000 do seu bolso para completar a meta. Se você estiver no Catarse, que cobra a comissão de 13%, somente R$2.610 vão retornar para o seu projeto. Os outros R$ 390 (que estavam antes no seu bolso, lembre-se) vão ficar para o site.

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 2. Esqueça a campanha flexível. A ideia das campanhas flexíveis, que estão disponíveis no Kickante, é que ela funcione como uma pré-venda. Você já teria o necessário para executar seu projeto mas usa o financiamento coletivo para incrementar seus recursos ou mesmo vender uns exemplares antecipados. O que parece ser uma boa ideia se transforma em uma armadilha quando a gente olha para a comissão: 17,5% se a meta não for alcançada, a mais alta de todas.

Se você não está precisando da grana para executar o projeto e não quer saber da tensão de ter que alcançar a meta numa campanha "tudo ou nada", o mais inteligente seria estabelecer um valor baixo, que seria certo de ser alcançado, e ficar mesmo na campanha do tipo "tudo ou nada" para pagar uma comissão mais baixa.

3. Escolha bem o site de financiamento coletivo. Até pouco tempo era só uma opção. Agora são vários sites de financiamento coletivo, vários deles correndo atrás de realizadores. Mas vamos ser pragmáticos: você quer é realizar seu projeto, não valorizar à start up alheia. O fato é que o Catarse já agrega uma comunidade de apoiadores de quadrinhos. Tem mais projetos, os projetos por lá têm mais apoiadores e é onde circula um volume maior de dinheiro em  investimentos em quadrinhos. Acontece que os leitores de quadrinhos já costumam circular por lá. De verdade, sucesso aos outros sites, mas por enquanto o porto mais seguro para quadrinhos é o Catarse mesmo. Ah… não estou recebendo nenhum jabá deles. Pelo contrário, acabei de pagar R$ 1.361,10 de comissão pela campanha da Máquina Zero.

4. Escolha a melhor época para iniciar a campanha. Os apoiadores têm recursos limitados e escolhem, segundo seus critérios, qual a melhor forma de usá-los. Sabe o nome disso? Concorrência! Você torce, do fundo do seu coração, para que todos os projetos sejam financiados, mas a verdade é que eles estão concorrendo entre si pela preferência dos apoiadores e seus limitados recursos.

No início do segundo semestre ocorre uma avalanche de projetos visando o lançamento em novembro e dezembro, respectivamente, no FIQ (a cada dois anos) e CCXP. Se você não vai lançar seu quadrinho em algum desses eventos, não tem razão para concorrer com as dezenas de projetos que miram os festivais.

Coloque-se no lugar do apoiador, tendo que escolher entre 46 projetos, como chegou a ter só no Catarse este mês (setembro de 2015). Segure sua ansiedade e deixe a gaveta fechada por mais um tempinho, pelo menos até dar uma aliviada.

5. Busque seus apoios. Alguns leitores de quadrinhos já têm mesmo o hábito de circular pelos sites de financiamento coletivo. Mas só esses leitores não vão financiar seu projeto. Você tem que correr atrás dos seus apoios.  Cada apoio é importante. Cada um é suado. E você vai precisar de mais de bem mais do que 100 deles para ter seu projeto financiado. Trabalhoso? Bastante! Financiamento coletivo não é almoço grátis, rapaz!!

Mas você pode dizer que em alguns projetos a grana começa a brotar assim que a campanha entra no ar. Aí eu repito: Financiamento coletivo não é almoço grátis, rapaz!! Se o dinheiro brotou rápido é por que o realizador já tem um trabalho consolidado e uma grande base de admiradores. Seria seu caso? Se respondeu que sim, tem certeza disso?!

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6. Cumpra o combinado. Projeto financiado? Cumpra o que combinou! Tudo que você escreve na sua página de campanha, pode não parecer, mas é um contrato. E contratos são para serem cumpridos. O apoiador já fez a parte dele. Se, por alguma eventualidade (espero que seja mesmo uma eventualidade, não uma irresponsabilidade), você não puder cumprir conforme divulgou na campanha, converse e explique para seus apoiadores. Apoiadores têm a tendência de ser pessoas legais (não confunda pessoas legais com idiotas) e vão compreender se você se justificar.

7. Trate bem seu apoiador. Sabe quem são seus apoiadores? Aqueles caras ou aquelas garotas que poderiam ter feito um zilhão de coisas com o seu tempo e seu dinheiro, mas optaram por gastá-lo em um projeto que você propôs. Seja sempre atencioso e gentil com eles. Aliás, seja sempre atencioso e gentil com todo ser humano. Mas não custa lembrar, né?

8. Priorize seu apoiador. Nada frustra mais um apoiador de quadrinhos do que ver o gibi sendo lançado em trocentos festivais, estar disponível em livrarias, ser resenhado por deus e o mundo, antes de ter chegado em suas mãos. Isso faz qualquer um se sentir desprestigiado e, logo, vai estar desmotivado para futuros apoios. Principalmente se for um projeto seu.

Algumas vezes fica claro na campanha que o livro vai ser lançado em algum evento e tal, mas se não for o caso, faça chegar antes nas mãos de quem permitiu que o projeto se tornasse real. Não é fazer com que o apoiador se sinta importante. É reconhecer que ele realmente é importante.    

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Agora, duas dicas para os apoiadores:

1. Apoie logo. Os primeiros apoios valem mais que os outros. Explico: tem um tipo de apoiador que somente coloca sua grana em projetos já financiados ou quase financiados. Não me pergunte a razão, mas eles estão por aí e são muitos. Então, se você contribui logo no começo, faz subir a barra do financiamento e traz outros apoiadores para o projeto.

2. Não deixe de apoiar. Em outras palavras: não seja aquele apoiador que somente coloca sua grana em projetos já financiados ou quase financiados. Se você realmente curtiu a proposta, contribua independentemente de faltar pouco tempo para terminar e ainda estar longe de alcançar a meta. Imagine que tenha 100 pessoas com o mesmo pensamento que você. Se todas contribuíssem, a meta seria alcançada, mas se ficarem todos só olhando para a barra de financiamento que não se move… nem preciso dizer o resultado.

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Créditos das artes: Tommi Musturi, Rafael Cordeiro, Cau Gomes e Hugo Canuto.

Todas as artes deste post fazem parte do volume 2 da Antologia Máquina Zero.

 

 

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.